A preguiça

Vem como brisa lenta e deita sobre a nudez da minha pele queimada todo o peso do teu ar, ó tarde!

Traz-me húmida à superfície de mim e com gotas de suor pinta um céu estrelado, ó luz!

Arranca-me suspiros gemidos de paz, dá-me certezas, ó brisa!

Deita-me lânguida, pingando braços e cabelos dourados no teu mar de sol, luz, luz… ó luz!

Fala-me ao ouvido da toda-bondosa esperança, faz do ruído sinfonia celeste cantada por querubins, ó brisa! Ah! Dá-me a pureza das tuas fontes e sedas, brisa, brisa!

Ó tarde, tarde…

Enche-me de sede só para me dares de beber! 

Deixa-me a morrer de fome e vem ver-me morrer saciada!

Dá-me sono e cama quente, dá-me noites à luz do dia e dá-me o fim de luz do dia que brilha de luz à noite.

E deixa-me mergulhada de néctar e mel, de doce e de vinho. Veste-me de branco, promete-me a lua, ama-me num bailado lento e triste e cai comigo. Desiste-nos na relva, deita tudo ao chão e desanima-te em beijos pelos meus ombros – que derretam em ti na sua morte demorada. Espelha o cinzento da lua no azul da barriga das sombras e leva-me embalada entre cortinas de ar desértico aos lagos onde fervem as águas e os desejos e as renúncias.

Abraça-me, amarra-me em carinhos moles e dá-me música e deixa-me a descansar.

Rebolo num lodo doce e há sal e flores nas pregas do meu corpo. Coço os olhos com cheiro a fim de tarde com as mãos que pesam como planetas. Há sereias dentro da minha almofada e ninfas penteiam-me os fios de cabelo. Na ponta da minha língua há geleia e escorre um rio resinoso no semicerrado dos meus lábios, corados de vinho novo e framboesas.

E… Arre!

Vai-te deste corpo, ó preguiça!

É que sabes tão bem que me deito contigo só para me perder…

Autoria: Ana Fagundes

Edição de Imagem: João Pereira