Não percebo porque é que se fala, hoje, em escravatura!
A escravatura não existe nos dias de hoje, nem nos influencia de maneira nenhuma! Não há cá chicotes nem humilhações, o mundo evoluiu, e todos sabemos que o sol, quando nasce, é para todos!
Eu mesmo, como todos nós, em qualquer parte do mundo, levanto-me de manhã cedo — uns mais cedo que outros, na verdade.
Desço a minha rua, na capital do nosso país e olho a majestosa vista da cidade, não vivesse eu bem perto da antiga Praça das Colónias (agora das Novas Nações), entre a Rua de Angola e a Rua de Cabo-Verde, países que viveram sempre em harmoniosa liberdade e, se não a tinham há uns anos, têm-na agora!
Olhem para as minas de diamantes em Angola! Os portugueses exploraram-nas enquanto deixavam os nativos na miséria. Mas isso são águas passadas, bem sabemos.
Desço e sigo para o metro, construído na década de 40, obviamente, acautelando todas as regras de segurança de trabalho e remuneratórias que uma obra daquela envergadura exigia e, ao chegar à Cidade Universitária, tiro o meu telefone do bolso, produzido no Vietname por trabalhadores bem alimentados e bem pagos, para verificar que horas são.
Está imenso frio lá fora, é dezembro!
Aperto o meu cachecol de algodão, plantado lá para as Américas em harmonia com a natureza, decerto, e feito, depois, no Bangladesh. Tudo como deve ser!
Corro até à Faculdade, no mítico Hospital de Santa Maria!
Sabiam que foi construído na década de 50? Bons tempos.
Vou para a Biblioteca de Anatomia, tiro o meu Mac, made in China, e ponho-me a estudar um pouco para ver se avanço na matéria.
As horas passam e lá tenho eu de ir para casa! É de noite já!
Não me apetece andar de metro a estas horas. Melhor chamar um Uber.
É indiano, penso eu! Que bem que estes motoristas se safam. Só para me levar até casa cobra-me cinco euros! Todinhos para ele!
A ganhar 5 euros por viagem, meu Deus! Está garantido! E mais gorjetas! Tudo isto a conduzir, apenas. Não dá trabalho nenhum e ganha mais que muita empregada de limpeza.
Ao chegar a casa ligo a TV.
Estão a falar de Odemira. Diz que quatrocentas pessoas foram encontradas a dormir num barracão. Eram do Nepal e, segundo as notícias, eram forçados a trabalhar em plantações de frutos vermelhos.
Bem… eles é que se põem a jeito, não é problema meu. Ainda por cima vêm roubar trabalho digno aos portugueses! Que vergonha de país!
Quer dizer, nós damos-lhes as oportunidades e eles ainda cospem no prato onde comeram? Realmente, o que fazia falta era voltarmos ao tempo da outra senhora! Isso sim! Aí é que eles iam ver!
Bem, veio-me a fome entretanto.
Vou ao frigorífico e não tenho nada para comer. Talvez mande vir um Glovo!
Espero, espero… mas que raio! O estafeta nunca mais chega!
Eu já pago mais um euro para que ele faça o seu trabalho, que é simplesmente pedalar ou acelerar numa mota até minha casa, (gastando gasolina se for o caso, paga do seu bolso, quer faça chuva ou faça sol, quando me dá na gana), e ele ainda demora mais de dez minutos a chegar aqui! Realmente! Havia de receber nada!
Mas bem, não há nada a fazer. É o mundo que temos. Enquanto espero, vou ver o último jogo do Mundial.
Este ano é no Qatar! Que espetáculo.
Era o meu sonho viver num país assim, rico! Aquelas coisas que andam a dizer sobre ter sido mão de obra barata a construir os estádios e de terem morrido mais de cinquenta mil pessoas a transformar Doha numa verdadeira cidade desportiva são tudo mentiras absolutas!
Isso ia lá ser financiado pelos países da Europa, como a França, sob o silêncio de outros, como Portugal? Todos sabemos que isso não faz sentido nenhum! Nós somos os primeiros a dizer não à exploração! Só querem arruinar o Mundial! Não gostam de futebol, está visto.
Ai, ai, vou mas é dormir, que está-se a pôr tarde e o amanhã é igual ao hoje … mas não sem antes verificar o meu calendário.
Amanhã é dia 2 de Dezembro.
Diz que é o Dia Internacional para a Abolição da Escravatura.
Mas que raio? Que sentido é que isso faz?
Continuam a falar como se a escravatura ainda existisse quando, em Portugal, foi abolida há 250 anos e todos sabemos que, no mundo, não há cá nada disso!
Esses tempos já passaram! Deixem-se de tretas!
Autoria: Francisco Ganço

