Caros leitores,
Em pleno 2022, deparamo-nos ainda com um Dia Mundial da Luta Contra a SIDA. Isto apresenta, à primeira vista, dois significados: por um lado, que a SIDA representa um problema que ainda não se resolveu; por outro, que há todo um estigma associado a quem foi infetado por HIV, principalmente os que se encontram no estadio de infeção por HIV mais avançado – os indivíduos com SIDA. Será que em 2030 este dia continuará a ter estes significados? O que estamos a fazer para o mudar?
Acabar com a SIDA
De acordo com os dados da UNAIDS (organismo ligado às Nações Unidas), em 2021…
1.5 milhões de novas infeções por HIV; 38.4 milhões de pessoas vivem infetadas com HIV; 650 mil pessoas morreram com doenças relacionadas com a SIDA. (1)
Tendo isto em conta, a OMS apresenta-nos um objetivo muito otimista: Acabar com a SIDA em 2030. No entanto, isto significa que pretende apenas acabar com a SIDA, como ameaça à saúde pública. (2) Para isso, espera-se uma redução em 90% de novas infeções e mortes. Atualmente, viver com HIV assemelha-se a uma doença crónica, na medida em que, apesar de não existir cura, o acesso a cada vez mais meios de prevenção, diagnóstico e tratamento eficazes permitem a alguém com HIV viver uma vida longa e saudável.
Os avanços na área do tratamento são positivos, mas será que estão disponíveis para todos? Das 38 milhões de pessoas infectadas com HIV, apenas 26 milhões tinham acesso à terapêutica antirretroviral – este tratamento é crítico, não só para melhorar a saúde da pessoa infetada, mas também para prevenir a transmissão (1). Estes não são dados de 2003, são de 2020. É urgente garantir o acesso a cuidados de saúde para todos, e reduzir a gap entre países (3º e 10º Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (3)). A OMS sabe-o, e garantir melhores meios de fornecimento (o tratamento deve chegar onde ainda não chega) encontra-se na mira.
Até 2030.
Acabar com o estigma
Sim, estigma esse que apenas aumenta a vulnerabilidade ao HIV e promove que pessoas com essa infeção tenham maior mortalidade por doenças associadas. Como queremos reduzir novas infeções por HIV se, em certos países, falta vontade política e não temos sequer condições para a igualdade de género (lembram-se? Escrevo este texto em 2022).
Toda a discriminação e estigma perante pessoas com SIDA não ajuda, e revela-se até um obstáculo ao nível da prevenção e do tratamento. (2,4) A OMS sabe-o também. Faço o convite a consultarem a estratégia mundial contra a SIDA, que (entre outros) aborda este problema.
Caso tenhamos chegado até aqui sem perceber o que tem o estigma a ver com o HIV, crenças como “só alguns grupos da população podem ser infectados com HIV”, “Ao ingressar numa certa prática, a pessoa mereceu ser infetada” ou fazer juízos de valor em relação a quem procura prevenir a transmissão de HIV são exemplos deste estigma. Com base nestas crenças, partimos para as ações – aqui entra a discriminação (recusar tratar alguém com HIV-SIDA, isolar alguém com esta síndrome do resto da comunidade, …). (5)
Penso que já foi possível perceber que a erradicação da SIDA depende do nosso conhecimento, do estigma e da discriminação. Avançar na ciência é necessário, mas não suficiente. Urge então garantir que as políticas certas sejam aplicadas, ao nível dos direitos humanos, ao nível da igualdade (de género). No mundo em que vivemos, com constantes ameaças à liberdade, será difícil. Com tantos regimes autocráticos (e teocráticos) vigentes, não estou particularmente esperançoso. Em Portugal, existe o direito à manifestação, mas no Irão, por exemplo, onde o próprio líder supremo (que neste estado teocrático, ocupa a posição de Ayatollah) ordena que se castigue quem protesta desde a morte de uma jovem curdo-iraniana, não tenho tanta certeza… (6) Mesmo assim, deve haver algo que possamos fazer.
Até qualquer dia.
Autor: Francisco Martins
Fontes:
- World Health Organization. (2022, novembro 9). HIV. World Health Organization. Recuperado a 29 de novembro, 2022, de https://www.who.int/en/news-room/fact-sheets/detail/hiv-aids
- Global AIDS Strategy 2021–2026 – End inequalities. End AIDS. (2021, março 25) UNAIDS. Recuperado a 29 de novembro, 2022, de https://www.unaids.org/sites/default/files/media_asset/global-AIDS-strategy-2021-2026_en.pdf
- United Nations. (n.d.). The 17 goals | sustainable development. United Nations. Recuperado a 29 de novembro, 2022, de https://sdgs.un.org/goals
- World Health Organization. (2022, julho 18). Global Health Sector Strategies on, respectively, HIV, viral hepatitis and sexually transmitted infections for the period 2022-2030. World Health Organization. Recuperado a 29 de novembro, 2022, de https://www.who.int/publications/i/item/9789240053779
- Centers for Disease Control and Prevention. (2022, novembro 3). HIV stigma. Centers for Disease Control and Prevention. Recuperado a 29 de novembro, 2022, de https://www.cdc.gov/stophivtogether/hiv-stigma/index.html
- Press, Europa. (2022, novembro 26). “Ayatollah” Khamenei quer “Vândalos e terroristas” castigados. PÚBLICO. Recuperado a 29 de novembro, 2022, de https://www.publico.pt/2022/11/26/mundo/noticia/ayatollah-khamenei-quer-vandalos-terroristas-castigados-2029354
