Como enDireitar a Humanidade?

Por breves segundos no vazio de uma noite sem vento, imagino um mundo em perfeito silêncio que inspira e expira a sua própria presença enquanto o faz girar a plena força bruta da vitalidade, onde há luz e todos podem ver como são um só, porém único, especial. E sem ser tanto do fundo de um lugar escuro onde se observa o que não se tem, nem tão pouco do alto celeste de quem acha ter mais que qualquer outro, é de uma vista tão terrena como a de quem às ondas dedica o olhar que contempla a serenidade de viver.

Num mundo em que existimos de acordo com os valores que fazem de nós humanos racionais, sensíveis, conscientes, aí podemos florescer e dedicar-nos a crescer como sociedade. Podemos parar de sobreviver e permitimo-nos simplesmente viver, viver a família, viver a natureza, viver as pessoas que nos rodeiam… prosperar na dádiva que é estar vivo independentemente de espécie, raça, cor, sexo, língua, religião ou opinião política, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.

Grandioso será o dia em que não se celebrem os “Direitos Humanos”, sem aspas nem letras maiúsculas, sem pompa nem circunstância. Grandioso será o dia em que todos os dias se celebre em momentos comuns a tão natural humanidade a cada um de nós concedida. Em que se deixe o atos egóicos de cabeça submergida em ganância desmedida, em que se ilumine os que caminham cegos por um deserto sozinhos a oásis ilusórios de poder que não existe, em que se valorize as pessoas de carne e osso, enquanto riem e contemplam as estrelas, e não rostos de metal ou papel de sangue manchados por um valor meramente arbitrário. Em que se deixa morrer por fim a ideia de que conceder direitos, que deveriam desde já ser intrínsecos à existência de pessoas, a crianças, homens ou mulheres que por milénios a eles nunca tiveram acesso, irá de alguma forma prejudicar quem deles sempre beneficiou. Em que se põe de lado a margem de lucro ou as taxas de inflação e enfim se eleva o coração.

Triste este vislumbre que apenas a uma visão se resume, a uma pequena fresta no muro da mentalidade de séc. XXI, fruto de poesias de pensamento que não se revêem no mundo atual. Em vez de reiterar o respeito absoluto, sujeitamo-nos a um egoísmo cego que extermina toda e qualquer liberdade alheia; ao invés de convergir para a prosperidade e evolução enquanto humanidade, as energias e esforços de uma nação global, dissipamos essa potência sem propósito ou razão em bombas de caos e desespero a troco de mais metros quadrados de sofrimento colateral. 

Esse lado negro, que no fundo chega a qualquer um, em pensamentos e palavras se irradia a cada célula, quer nos pertença ou não, como se de um vírus se tratasse, infeta. Amplia-se. E uma vez sem controlo, sem percepção, arrasta. Carrega-nos em peso à ponta do precipício, ao ponto crítico, onde sopra o vento cada vez mais forte, onde o nosso próprio peso nos deixa de agarrar à terra, onde sentimentos a escolha, onde a um sopro de distância a escuridão se estende a ponto de não retorno…

Esquecemo-nos que à profundidade de qualquer abismo lhe antecede sempre um pico mais alto onde podemos escolher. Escolher olhar em volta e ver como nos cobre um mesmo céu azul, nos suporta uma mesma terra, nos aquece o abraço de um amigo, nos conforta a gargalhada de uma criança. Escolher bem acima do vento e escolher Ser Humano. Hoje. E sempre.

Autoria: Carolina Afonso