Aqui, sozinho, agora, nada tem mais memória do que o que me lembro que não fiz. Uma reunião de vontades que nunca evoluíram desse estado estagnado de não ser real.
Porque tudo aquilo que não se faz tem estatuto adquirido de perfeição com a única imperfeição de nunca ter acontecido, penso se chegarei a questionar-me: Porque deixaste tantos abraços, tantas palavras para a próxima página, sem perceberes que o caderno acabara logo quando os dois pontos que faltavam às desejadas reticências não mais cabiam. (..) ? Esforço-me por colocar uma vírgula por baixo do resistente, na esperança de que carregue nesse pedacinho de tinta tudo o que vivi sozinho, no egoísmo (ou altruísmo falhado) de querer intensificar a sua importância… Mas, censurando esta vontade que sabia não ser possível, a caneta também já morreu.
Irónica a falta de oportunidade que identifico quando coexisto com a consciência de que a existência de uma oportunidade nunca se sobrepõe à existência do momento… Porque tinha de esperar pela oportunidade? Pelo tempo certo e a circunstância mal idealizada da qual só sei que nunca existe e que nunca é esta?
Ao pousar a caneta levanto o auscultador quase numa sincronia de quem assume o desenrascar. Atendes com voz de circunstância errada, momento para adiar e falta de oportunidade. Numa troca de frases soltas, sem significado nem importância e que apenas preenchem um vazio até agora cheio de cenários imaginados, penso que, se estas forem as últimas palavras que me ouves proferir, que venham de mim e sejam a mentira mais bem intencionada em que alguma vez acreditaste: “Até amanhã”” ; .
Autoria: Anónimo

