Ana Fagundes
julho de 2022
Tenho uma tristeza de estimação.
Tenho uma tristeza de estimação, que vem com lentidão derreter-me no derreter-se de um sorvete de limão que foi esquecido ao sol da minha janela do quarto, num lanche para sempre perdido e no qual vamos encontrar um ninho feito, anos de tinta desbotada mais tarde, já demasiado tarde! Sei disto, mas não vou buscá-lo, só para sentir o poder de o votar a essa sorte azarada e infeliz do entorpecimento.
Tenho uma amiga tristeza, que é das melhores. Conheço-a tão bem que sei que gosta de verão, de pores do sol e de surpresas – como uma qualquer pessoa sem personalidades fortes feitas de contradições do normal, e que nunca saberei como escolhe os serões em que surge.
Em crescendo de suspense e melancolia abre de par em par as cortinas do quarto, imóveis e deita-me cadavérica ao chão.
O meu cabelo escorre nostálgico pelos ombros, para criar raízes no soalho e é quente e incomoda, ou é indiferente, tanto quanto os braços, as mãos, as pernas, a vida lá fora e a vida cá dentro.
Há música porque quis saber se ainda ouvia e deixei-a por desligar. Não conheço e é circunstância universal, com tudo o que rodeia e incomoda, que ocupa espaço, que mancha o ar de som, que põe cor na luz.
Que peso pode ter a simplicidade de uma tarde qualquer, que dores se pode ter só porque nada dói.
Não quero ouvir o rouxinol, que se cale! Não quero ver o teto e ao longe, já sem foco, a colcha da cama. Não quero estar deitada no chão e não me obriguem a estar de pé, que faço uma ridícula birra, ergo toda a minha falta de caráter em guerra contra a astrofísica, a quântica e a realidade.
Estou tão cansada do concreto e tão cansada de me perder em abstratos.
Cruzo os braços, contraio a cara numa careta, devagar, que não me venham com segundos, minutos e pressas e datas e compromissos! Não me mexam e não me deixem! Odeio este amuo que teimo em amuar!
Atiro tudo para o nada!
Ugh! Mas quem disse que queria escrever?

