Há um pássaro morto num frasco de formol

Há um pássaro morto num frasco de formol. 

Um dia, eu vou correr para abraçar um comboio em andamento.

Em linha com a sua linha, um dia. Nesse dia, vou sentir em cada osso o toque firme da calma que a pressa do motor a carvão contém. 

Como no campo verde e saudável que ninguém conhece mais, correrei para ele de sorriso rasgado e braços abertos. E ficarão os meus braços, separados de mim, em rota para o abraço infinito.

Um toque leve, instante de instante, segunda divisão de segundo, e os gritos! Um último estridor, na estação em hora de ponta, o coração em alvoroço pela sobrevivência vã, o cérebro a arder, pressionando a caixa óssea que quer rebentar. 

E o silêncio. O pacto veloz do fim. O toque final da morte. 

O ruído todo do mundo resumindo-se num súbito zumbido que cesse pouco a pouco. E o esforço cardíaco bombeante anulado à calmaria da pausa que não acaba. E o cérebro a reluzir entre as pedras que abraçam os carris. Um sorriso arrancado da face, disparando-se para sorrir a cada partícula de ar.

Um dia, num dia em que esteja sol e em que a primavera esteja bonita, o sol a pôr humidade nas testas reluzentes, apenas o suficiente, eu vou sair do comboio da vida, de chapéu e mãos soltas, no anseio de serem livres, e vou para a estação esperar.

Na espera solarenga e fatídica ouvirei dizerem que vem aí. Vem aí! Cuidado! Vem aí o comboio que não para! Vem aí o que anda sempre e ceifa.

Um dia, nesse dia, depois de dar roda ao vestido leve e segurar o chapéu que a brisa quer roubar, vou levantar-me, na estação da espera, e dar passos leves, pequeninos. Até à margem angulosa do cais. 

Uma criança luminosa, na altivez que é a inocência da meninice, pergunta-me se gosto dos seus sapatos vermelhos. Que bonitos, digo-lhe.

Os carris cantam a sua vinda, berram num sussurro que aumenta, aumenta… Cuidado, senhores passageiros! É o fumo que apita ao longe, que se aproxima. Pouca-terra, pouca terra. Nem notei no violino que competia, e perdia, o ar para o brado metálico energético, neurótico do comboio frenético. Abrem-se-me os poros, desabrocham-se-me rosas nas faces, são os olhos que me brilham, numa despedida. 

Pouca-terra. Pouca-terra.  O vento é pressionado numa dança corredia pela estação cilíndrica, entra e rodopia entre os que esperam o comboio que para. Vem aí o comboio que não para!

Cuidado!

Um dia, eu não vou esperar mais. Pouca-terra.

E dou um último passo. Os pés não chegam a tocar o chão, que é já de saudade. Levanto voo, projétil sem fim, no final.

Um dia, a terra nunca mais será pouca. E as minhas células vão provar a leveza fúnebre dos pássaros, no desmembramento de uma fissão nuclear. Dente de leão cheio de sonhos, mas sou sopro agora, eu. Rosa desflorada, pétalas rubras, líquidas, no chão. Eu, multiplicação de milhar por milhar e sou eu.

Um dia, eu vou correr para um comboio em andamento e dedilhar o infinito, ser mais. Ser pássaro. Um dia, eu vou ser pássaro.

Há um pássaro morto num frasco de formol.

Autoria: Ana Fagundes