Por vezes, caminhando pelo passeio

Por vezes, caminhando pelo passeio, dá-se a ocasião de vislumbrar um fósforo no meio da estrada. Confrontado com isto, talvez desvie o meu caminho.

Seguro o fósforo. Recordo-me, por tão simples e instantânea associação de ideias, que “até tenho uma vela em casa”. Guardo-o comigo e volto para o passeio.

Em casa, retiro a vela, há muito a mim confiada pela vida, do seu esconderijo. Diante de mim, um obelisco de cera, aparentemente intacto, inerte, inútil. Seguro o fósforo e procuro uma superfície onde o acender. Chama insegura, apavorada. Admiro por momentos o tremelicar rotineiro, uma dança sem ensaio que lhe sai tão naturalmente. Aproximo-a da vela, queimam-se-me os dedos, cai no chão o fósforo, apagado, inerte, inútil.

Acendeu-se a vela pela primeira vez. A sua dança não é tão natural, cambaleia, tropeça, cai, suaviza, acalma, apaga.

Guardo a vela no local de sempre.

[…]

Por vezes, caminhando pelo passeio, dá-se a ocasião de vislumbrar um isqueiro no meio da estrada. Confrontado com isto, talvez desvie o meu caminho.

No meio da estrada, apanho o isqueiro e rapidamente volto ao passeio, com medo de ser atropelado. Seguro-o na minha mão, estudo o seu mecanismo. Procuro como acendê-lo. Tento uma, outra, uma terceira vez. Acende. Recordo-me, por tão simples e instantânea associação de ideias, que “até tenho uma vela em casa”. Guardo-o comigo e continuo pelo passeio.

Em casa, retiro a vela, há muito a mim confiada pela vida, do local de sempre. Diante de mim, uma estátua de cera, já usada, de ponta inacabada, inerte, inútil. Seguro o isqueiro e testo o mecanismo algumas vezes, procurando não falhar. Admiro por momentos o arder constante, estático, firme. Chama sem medos. Sinto calor, mas sem descontrolo. Apaga-se, mas prontamente se disponibiliza, assim que a recruto novamente. Aproximo-a da vela, e acendo-a.

Alguma aprendizagem terá havido, não fosse a coreografia mais regrada. Sinto finalmente a sua luz. E assim se mantém, toda a noite, pingando cera para um pequeno prato onde repousa.

Vou dormir.

[…]

Acordo, e ainda lá está, a derreter.

Escolho deixá-la como está, cumprindo o seu propósito, a sua chama tornada companhia contínua do batimento irregular do meu coração.

Guardo comigo o isqueiro. Uso-o para acender o que me convém. Fumo um cigarro, queimo mágoas, aqueço as mãos quando a alma me gela.

Um dia, ao chegar a casa, vejo a vela apagada. Escultura decrépita, erodida pelo tempo e pela chama, mas ainda guardando em si o potencial para mais.

Retiro o isqueiro do bolso, testo o mecanismo algumas vezes, mas não surge labareda. Só, giro infinitamente a roda metálica, procurando o mesmo resultado de sempre. Na escuridão da noite, o que mais nos falta é a luz. Guardo a vela no canto mais fundo do seu abrigo. Deito fora o isqueiro, gasto, inerte, inútil.

[…]

Por vezes, caminhando pelo passeio, poderá dar-se a ocasião de vislumbrar uma chama no meio da estrada. Confrontado com isto, talvez volte a casa, retire a vela do seu refúgio, e a traga para junto do lume. Talvez nesse dia, ela possa arder até ao nosso fim. Até lá, serei só eu e o passeio. Até lá, será só frio e escuridão. Até lá, talvez.

Autoria: Afonso Ribeiro