O meu quarto está cheio de ratos.
Rastejam parede acima e abaixo
E à noite mordiscam-me as pontas dos dedos.
Defecam num dos cantos, onde eu deixo os pratos sujos.
Entram pela ventilação partida do teto
E saem pela porta que deixo entreaberta quando vou beber.
No breu da noite, quando chego
Oiço-os chiar em cima da minha cama.
Mas o hálito tóxico que emano é tanto
Que rapidamente se afastam permitindo o meu sono glorioso.
Quando acordo, atormentado pelos atos passados e uma dor de cabeça latejante
Já estão eles de roda do meu armário.
As minhas camisas têm buracos e os meus sapatos sola roída.
São tantos os ratos,
Quase tantos quantos os buracos
E quase tantos quantas as pessoas que habitam o meu quarto.
Vê-los rastejar nas paredes caiadas
Lembra-me das mil almas trancadas
Que dentro de mim berram.
Não tenho uma para cada dia da semana
Tenho uma para cada dia da vida
E na procura dos ratos por comida
Revejo-me na procura de um sentido.
E sentindo o peso do mundo em mim,
Com os ratos adormeço.
E com uma garrafa.
E com um cigarro.
E com um cinzeiro imundo.
Melhor seria ter um mapa
Para me encontrar neste mundo.
Autoria: Ricardo Silva

