Vivo com rápidos debaixo dos pés
Grandes enxurradas, tormentas,
Correntes arrasadoras
De passagem avassaladora
E no meio disto busco, incessante
Os rochedos, ilhéus
Refúgios deste vendaval
Escape deste ritmo pulsante
E quando a água me arrastar
nada restará senão o nevoeiro
A neblina que esconde
A imensidão do vazio
E não haverá voz
Atrás de lábios gretados
Esboçando sorrisos rasgados
De outro dia atroz
Porque das gotas ácidas
nada sobrará senão o deserto
Nada me conseguirão espremer
Senão o pó destes dias
E as lágrimas azedas dos dias que não existiram
É esta mágoa momentânea
Que derrete as horas
Mas congela o ser
E me faz pingar aos poucos
Para alimentar os grandes rápidos…
Vão me encontrar a flutuar
à deriva
No leito deste rio,
seco.

