Aquele vermelho nas armas não é sangue

Acordei tarde para muitos, no final da manhã. Não gosto de acordar cedo e não há nada para mim lá fora que valha um despertar de madrugada, não há nada para ninguém. 

O Joel está à minha espera desde sessenta e três para irmos bebericar um cafézinho ali na casa do Zeca que é já ao virar da esquina, mas nem isso posso eu fazer. 

Os meus joelhos gritam muito e declamam odes quando ando, são poetas como eu!  

Nem o Joel nem o Zeca tinham joelhos gritantes e mesmo assim foram presos pela PIDE.

Ah! Já dizia a minha Esperancinha, “Poetas não vencem nas ruas, só nos seus leitos de morte, com os seus rabiscos encontrados escondidos nas escrivaninhas e as suas casas feitas museus.” Deus a acompanhe e à sua sapiência danada. 

Levantei-me com cuidado e olhei em volta. Há barulho vindo do exterior, como se os Santos Populares tivessem vindo mais cedo a Lisboa. Aproximei-me da janelinha que uso para ver como está o tempo lá fora, a mesma janelinha que a dona Eva, minha querida avó, usava para deixar os seus pensamentos apanhar um pouco de sol. Ainda me lembro de quando era um pequenino inquieto e curioso, sempre a fazer perguntas.

– Minha avó, porque contempla tanto? 

– Os olhos são calados. 

Já é falecida há muitos anos, a minha avó. Agora o velhinho que diz coisas incompreensíveis à juventude curiosa sou eu. 

Quando chego à janela e vejo o que se passa quase dou um pulo (se os meus joelhos deixassem provavelmente seria tão alto que bateria no teto). Tanta gente! Tanto soldado! É uma Revolução!

Por momentos estremeci, as revoluções costumam ser perigosas e a minha querida Lisboa tem muita gente inocente e de bem, embora silenciada.

Observei mais um pouco os rapazes que desciam a rua e as suas grandes armas e não quis acreditar no que vi.

Não pensei em mais nada, sentei-me em frente à escrivaninha, agarrei num papel e tinta e comecei a escrever:

Olhai, ó gente adormecida.

Só os meus mirantes não chegam

Que nas ruas o caminho é só de ida 

A liberdade está perto, recebam

Recebam os homens e as mulheres

Ouçam-nos gritar

Que no dia 25 de Abril 

A liberdade está a chegar

E os verdinhos que andam

Agrupados como um gangue

Não se aflijam boa gente

Aquele vermelho nas armas não é sangue

E agora, se me escusam, vou ali ao virar da esquina ter com o Joel e com o Zeca e vamos bebericar um cafézinho, com os meus joelhos a gritar “Liberdade! Liberdade!”.