Nomes

Chamem-me todos os nomes. Imploro-vos. Por um dia, chamem-me o que quiserem.

Quero que me chamem de Alice. Quero ser Rainha, viver no mundo das Maravilhas e celebrar os dias tão extraordinariamente mundanos. Quero que as minhas lágrimas reguem flores. Ou, no mínimo, quero que o meu coração finalmente se feche em copas. Não aguento mais que ele seja trespassado por espadas e paus. Façam-me perder a cabeça e deixem-me viver no paradoxal, porque eu continuo a correr o mais depressa que posso, quando quero ficar no mesmo lugar.

Quero que me chamem de Perséfone. Quero uma coroa de flores com estes ossos. Quero que ele olhe para mim e veja mais que uma simples ninfa esquecida. Que este amor torne o Inverno escuro e frio no mais feliz dos lares. Reinar entre flores gentis ou criar passarinhos no meu colo. Porque parte de mim já vive entre os demónios, assoberbada de tristeza e fúria que até a própria Morte empalidece.

Quero que me chamem Clementina. Quero ser mais delicada, doce e clemente. Que a tonalidade da minha alma seja amarela, laranja e quente. Quero desabrochar e contrastar com o céu violeta e ser sorriso sumarento de dia de Verão. Quero mais que um fruto amargo, seco, negligenciado pelo sol.

Chamem-me tudo menos o meu nome. Porque ninguém me chama como ele. Nos seus lábios, o nome mais banal era único, nos seus suspiros, o meu nome era nosso. Por isso, enquanto procuro um nome só meu, acendo mais um cigarro desapontado e bebo mais um shot desconsolado, na esperança de esquecer o teu.

Autoria: Ana Margarida Fonseca