Quando nada acontece

Há dias em que acordamos e nada aconteceu.

Acordamos no mesmo sítio onde nos deitamos, com a mesma roupa vestida, ao lado da mesma pessoa dantes. E, no entanto, tudo está diferente. O mundo mudou, e nada aconteceu. Um terrível e tenebroso nada, uma tempestade implacável num dia de céu limpo.

Ninguém podia prever que nada ia acontecer. Esperamos tudo, mil e uma coisas, possíveis e impossíveis. Estamos sempre a preparar-nos para o pior, para o cataclismo, para as chamas que consomem ou as ondas que arrasam. Mas ninguém espera o nada. Afinal de contas, quem é que já morreu de nada?

Mas o nada aconteceu. E nós tentamos negá-lo; porquê aceitar a existência do que não existe? Empoderar uma nulidade? Render-se perante um vazio? Mas estas questões servem de nada, porque nada volta atrás.

Não há nada mais assustador que um nada, abissal, que questiona emoções e orienta ações. E é impossível explicar aos outros que nada aconteceu. Porque, no final do dia, o nada só aconteceu para nós. E só nós é que sentimos o que é não sentir nada.

Autoria: Pedro Sousa