Sinto os meus dias contaminados por uma mágoa difusa. Como se estivesse constantemente a pingar tinta… Olho para trás e consigo ver o rasto de pingos coloridos, nos corredores, nas cadeiras, nas ruas e nas paredes. Por onde passo, naquilo que toco, deixo o meu arco-íris de tons sofridos, manchas garridas e difíceis de limpar, como as nódoas que estragam roupa, por mais que se esfregue. Chego ao fim do dia e dispo a minha roupa, pesada de tinta, que agora faz poça no chão do meu quarto. E deito-me a olhar as paredes do meu cubo caleidoscópico, ansiando o momento em que fecho os olhos, e mergulho na ausência de cor: preto.
Autoria: Pedro Sousa

