Vivo na cidade das luzes, mas encontro-me sempre na sombra. Seja na tua ou na dele. Refugio-me debaixo dos viadutos, nos escombros das vielas, nas ruas sem saída, iluminadas apenas pelos néones das lojas de conveniência sempre abertas. Vagueio a cidade, de olhos vazios. A minha cama já não me conforta: a insónia tornou-se a minha profissão.
Admito, estou exausta, mas não paro. A dor lancinante nos meus pés é a minha única prova de vida. Já faz tempo que o meu coração deixou de bater e que Deus levou a minha alma. Numa noite tão fria como a de hoje, entre gritos de desespero presos na minha garganta, fui desalojada. Num segundo, tornei-me sem abrigo, mendiga de amor.
Tropeço na alegria alheia e caio redonda no chão. Com que força me levanto? Não sei dizer. Alguém me dá a mão, mas já não reconheço os rostos de ninguém. Tenho os olhos vazios de cor. Continuo sedada de essência, mas continuo em frente.
A lua tornou-se no meu anjo da guarda, confidente de todas as horas. Sobre a sua luz, fomos arte, em mármore, despidos e esculpidos por Michelangelo. No entanto, hoje é noite de lua-nova. Deixo-me ser abraçada pelas trevas. São as únicas por quem ainda me deixo desnudar. Agora pondero se era o meu corpo ou a minha mente que ele queria despir.
Passo a passo. Quanto mais deambulo, mais vejo tantos que como eu, deitados na berma da estrada, sentados em bares ou fornicados em becos escuros. Só mais um copo, mais um cigarro, mais um comprimido, mais uma noite de “amor” casual.
Enfim, são tantos como eu, que na cidade das luzes, perderam a sua.

