O MEU PECADO


Deixem-me ir.

Deixem-me morrer aos poucos.

Deixem-me secar como podre fruto

no chão doloroso e bolorento.

Deixem que me consumam os vícios,

a má escrita,

a fome e sede de não ser.

Deixem que a música pare.

E que o piano me não possa conter.

Deixem-me viver na solidão.

Fazer do desamor o meu reduto.

Fazer da sombra a desilusão

e do calor o pendor absoluto.

Deixem-me não respirar.

Qual santa asfixia!

Deixem-me vestir de negro de luto.

E sentir, na carne, toda esta dor,

todo o negrume, todo o calor,

do fogo que me arde em alta fé.

Queiram ver-me redimir,

os meus pecados.

Venham insultar-me,

amarrado, de pé.