A Arte e o Artista

Se to disse uma vez, dir-te-ei mil vezes. És arte.
Tentei agarrá-la, com a ponta dos meus dedos. Quem sabe lê-la, saborear ou até respirá-la. Ter um pedaço de ti em mim e perceber: como será ser escrito pelos sonhadores, pintado pelos loucos, esculpido pelos mestres?
Peguei em pincéis e guaches, lápis e canetas, e pintei o que vi em ti desde o princípio. Se para os outros a tua beleza era invisível, agora não podia ser ignorada.
Desenhei os fantasmas do meu passado e, num segundo, os seus lamentos tornaram-se doces. Não úlceras nem cicatrizes, mas apenas pequenas nódoas negras. Temporárias medalhas de quem um dia tentou. Assombrações que se dissiparam na tua voz.
Pintei toda a flora nas tuas costas. Imediatamente, cresceram as mais belas flores. Senti o aroma de lavanda acariciar a minha alma, margaridas que me beijaram os olhos e até nenúfares que beberam as minhas lágrimas.
Escrevi este delírio, numa tentativa desesperada de te fazer justiça. Como todos os poetas, pedi emprestadas aos astros, as palavras que só quem viveu junto deles entende. Tentei escrever com o pó das estrelas e inspirar-me na lua. E nela, vi o teu sorriso.
Nem sequer tentei esculpir. Barro ou mármore, as minhas mãos estão demasiado calejadas de todos os vasos que se partiram. Todos os cacos que me cortaram, que me desmotivaram e que apodreceram no chão. Hoje, limito-me a apreciar o realismo desta estátua, sempre em movimento.
Digo-te, uma vez mais, tu és arte. 

Por isso, eu tornar-me-ei artista. Nem que seja para estar mais perto de ti e finalmente, viver uma vida, digna de um museu.