Varanda

Frustrado pelos sonhos abandonados

Caminho pelas caras cinzentas que encontro.

Têm todas algo de familiar

Acho que partilho casa com elas.

Habito no desejo do que não fiz

E na vontade do que já passou.

A possibilidade que deixei para trás

O tempo que me ultrapassou.

Arrastam-se morosamente e eu vejo-as ao longe.

Da varanda de um prédio desconhecido

Enquanto fumo um cigarro com um amigo.

Invadimos esta casa à procura de abrigo

Dos sonhos perdidos.

Pouco depois o dono expulsou-nos e ameaçou chamar a polícia.

Mas não há cacetete que me fira

A minha mágoa é maior que a sua ira

E por isso impedir-me é algo inútil.

Tentei ficar, com o meu amigo

E numa tentativa fútil

De encontrar sentido nas minhas ações,

O proprietário de tão belo apartamento

Já com um ar de descontentamento

Informou-nos da chegada da autoridade.

“A mim é que não me apanham, 

Seus ladrões da liberdade

Eu sou uma alma jovem e voo mais alto que os vossos sonhos.

Daqui voarei contra o sistema e contra todos”.

O jipe da PSP parou e os agentes apressaram-se a contactar a emergência médica.

Outra tentativa fútil e inútil

Pois o meu corpo jazia despedaçado na Avenida Duque de Loulé.

O meu amigo fugiu e levou o meu pé.

Que bela recordação!

Autoria: Ricardo Silva