Nos Delírios de Vesálio

Existe todo um processo demorado na dissecção. Os diferentes órgãos, se locomovendo em distinto ritmo, dão a forma a entender os múltiplos pressentimentos de um corpo vivo.

Vivo? Dizeis vós?

Sim, vivo.

As minhas dissecções são a espiritualização de uma poética além da alma. A fisionomia, maquinaria em deslocamento, dá por mim a concebendo enquanto marioneta de um sangue obscuro. É preciso, portanto, que a energética vital do indivíduo assim aberto, em cicatriz, me esteja sonoro, e místico, e gritante.

Não existe um intestino, no seu peristaltismo claro, que me esteja limpo. De igual modo, para mim, há que admitir: toda a arte é, na verdade, a dissertação de um princípio sujo.