Aproxima-se a época natalícia, uma época mágica onde não só se partilham prendas, como também sorrisos e alegrias. Esta época é propícia a trazer-nos as recordações daquilo que vivemos, sejam elas tristes ou alegres. A mim, o Natal enche-me os olhos de lágrimas, pois traz-me sentimentos e emoções tão fortes que tenho dificuldade em definir.
A minha vida não foi fácil. Sou uma mãe solteira e tive cinco filhos, cujo pai nos abandonou. Vivíamos numa casa de madeira, com fendas de um centímetro nas paredes, sem água nem luz, apenas com um humilde tapete à porta. Comíamos do mesmo prato e bebíamos do mesmo copo. Talheres não havia, e a comida nem sempre chegava para todos. Passávamos a noite aconchegados uns aos outros por causa do frio que as fendas, cada vez maiores, deixavam trespassar. Recordo, com um aperto no coração, todas as manhãs, quando saía para trazer sustento para os meus filhos e os deixava sozinhos e abandonados à sua sorte. Durante muito tempo fomos sobrevivendo, na esperança de um dia conseguirmos melhorar a situação em que vivíamos. Quem sabe? Novos amigos, nova casa, melhor comida…
Mas toda aquela situação se tornou muito difícil de suportar. Como tal, sendo eu uma mãe que coloca a felicidade dos filhos acima de tudo, dei por mim a sonhar que alguém viria adotá-los. Se tal acontecesse, deixá-los-ia partir, ainda que essa partida me deixasse destroçada. Nunca desejei que os meus filhos fossem para longe de mim. Apenas queria que tivessem uma vida melhor, mesmo que isso implicasse não os poder ver.
O “sonho” tornou-se realidade. Num belo dia se sol chegou um casal que, olhando para todos os meus filhos, adotou aqueles que lhe pareceram mais bonitos. As pessoas são assim: confundem, muitas vezes, o parecer com o ser. Foi muito difícil para todos nós, aquela separação. Os irmãos choraram a noite inteira, e eu contive os meus gemidos, como pude.
A semana seguinte foi muito dolorosa. Entre nós reinava um silêncio gritante, que a todos perturbava. Quinze dias mais tarde outro casal, amigos do primeiro casal, quando soube da adoção, não resistiu à curiosidade e veio visitar-nos. Também eles levaram dois dos três filhos que me restavam e reparei que, tal como o primeiro casal, escolheram os que lhe pareceram mais belos. Fiquei apenas eu e o meu filho mais novo. Nos seus pequenos olhos castanhos começavam a formar-me lágrimas salgadas de quem percebeu que perdera os seus irmãos. Nos tempos que se seguiram, entre nós pairava a solidão e o sentido da perda, mais forte do que as dificuldades sentidas até então. De manhã, quando saía, a ansiedade apoderava-se ainda mais de mim, por saber que deixara um filho sozinho, exposto a todos os perigos e, agora, sem a companhia dos irmãos.
Numa madrugada de dia vinte e quatro de dezembro, véspera de Natal, fomos acordados por outro casal, que queria conhecer o meu filho. Nesse momento senti uma profunda mágoa e alívio: uma profunda mágoa pois teria de me despedir do meu último filho, e alívio pois sabia que ele iria viver uma vida melhor, sem as dificuldades pelas quais tinha passado.
Nunca mais vi os meus primeiros quatro filhos. Mas o último, que aos olhos dos outros parecia o mais feio, encontro-o frequentemente no parque a brincar com a sua nova família. A primeira vez que nos encontrámos, experimentei os sentimentos mais fortes que um ser pode sentir. As emoções foram tantas que, por momentos, pensei que não ia aguentar. Depois de alguns instantes abraçados um ao outro, foi ele o primeiro a ganhar forças para desenlaçar os nossos corpos. Olhou para mim e, de seguida, correu para o escorrega do parque. Subiu as escadas que o levava ao cimo da plataforma de madeira e escorregou de novo para o meu peito, tal como fazia quando era bebé. Foi um dia cheio de emoções. No momento em que ele se afastou para beber água, fiquei sentada junto da sua família adotiva, que se encontrava a conversar com uns amigos. Entre sorrisos e gargalhadas, ouvi a história do dia da adoção do meu filho. Fiquei a saber que vivia numa linda mansão com belos jardins, onde ele podia correr livremente e sempre rodeado de crianças. Soube, também, que, na noite de Natal do dia em que foi adotado, lhe ofereceram a melhor prenda com que alguma vez sonhara: uma coleira azul onde estava gravado o nome que lhe deram e que toda a família lhe chamava: Snoppy.

