Carne Pútrida

Ao longe, o sol nasce por entre as chaminés.
Marés de telhas cobrem a bruma urbana.
E o Homem acorda, nauseado pelo cheiro a mortos.
As ruas enchem-se de cadáveres
Que se deslocam tortuosamente para lado algum.




Um cigarro queima ao longe e berra aos ouvidos de um recém nascido
O triste fado que dele se apoderará.
Destinado a ser finado
Por uma vida de desagrado.
Sabe que nunca viverá.




O reflexo do sol no para-brisas ofusca o condutor
Que descuidado vira o automóvel e cai no rio.
E lentamente se afunda na imensidão da mágoa.




No esplendor dos vales, um veado cerra os cascos e recusa-se a correr do predador que o persegue.
E lá, nas planícies de folhas e ramos, apenas um murmúrio é audível.
Um ganir, leve e sofrido, pois nada se conquista sem sacrifício e sem carne.




E a carne pútrida na calçada é tanta,
Que donzelas cobrem a sua delicada focinheira 
Com lenços de linho e seda.
Almas desgastadas em prol de nada.
De uma mão cheia de moedas douradas
Vazias de propósito, vazias de valor,
Vazias de sentimento.




Num mundo onde um quilo de ouro pesa mais que um quilo de penas
Descanso eu a minha, na esperança de acordar.
E no dia seguinte, oprimido pela tendência suicida
Como fénix, me ergo novamente
Apenas para tornar a cair.
Num ciclo interminável e tormentoso,
Pois o caminho dos justos está cercado por todos os lados.




Na ponta do cano vejo o reluzir da vela.
A sujidade que se esconde debaixo da unha não tem coragem para premir o gatilho.
E a vela arde até se apagar e até o cano não reluzir mais.




É então que a pena volta a acordar, para nunca mais adormecer.
E escreve freneticamente pela noite inteira
Pela noite eterna
Num passo maior do que a perna,
Zelando por um dia de luz.




O sol lentamente se levanta e bate nas cortinas. 
"Quem é?" pergunto eu.
Ninguém. Absolutamente ninguém.




Autoria: Ricardo Silva