Luís Sepúlveda foi mais que um escritor durante a sua vida: foi um guerrilheiro, um activista político durante uma época conturbada no Chile. Esteve preso, foi torturado, viveu no exílio. E foram estes períodos difíceis que serviram de base a todas as suas obras. A sua primeira grande obra, e das mais famosas em todo o Mundo, tendo sido traduzida em várias línguas e contando já com um filme que a retrata, intitula-se “O velho que lia romances de amor”. Faz já 35 anos que o Mundo conheceu a história de Antonio José Bolívar, um homem que, há mais de quatro décadas, vive em El Idilio, um pequeno vilarejo equatoriano situado na periferia da Amazónia. Era tão remoto que só podia ser alcançado através do rio, tanto que poucos ousavam visitar o local.
A paz que a aldeia vivia foi perturbada pelo aparecimento de vários cadáveres com marcas de ataques por ocelotes. Com o intuito de travar esta chacina, foi organizada uma expedição, liderada por António José Bolívar, de forma a caçar o animal em causa.
Neste pequeno grande romance, somos confrontados com a clássica dicotomia entre o Homem e a Natureza. Testemunhamos como a invasão feita pela sociedade industrializada ameaça a floresta (e a sua própria natureza selvagem).
Tal como no dia-a-dia, em todo o Mundo, vemos cada vez mais áreas florestais serem destruídas em troca do que o Capitalismo chama de “progresso” e da sua busca do “vil metal”. Em consequência destas ações, os índios Shuar, com quem o próprio autor conviveu, não tiveram outra opção senão recuar para as profundezas da própria floresta perante a miríade de ameaças que enfrentavam.
Voltando a Antonio Jose Bolívar, a verdade é que ele não era originalmente da região mas sim da aldeia de San Luis. Aos quinze anos, casou-se com o seu amor de infância – Dolores Encarnacion.
Este jovem casal emigrou para El Idilio em busca de um futuro melhor. Contudo, a vida pregou-lhes uma partida e Dolores acabou por sucumbir à malária. Desde então, Antonio José Bolívar viveu entre os índios Shuar, com quem aprendeu a arte de sobreviver na selva, dedicando boa parte dos seus dias à sua outra paixão – as histórias de amor. Através da ajuda do dentista que o visita ocasionalmente, recebe novas histórias que vai lendo, e são estas que o abraçam no final de cada dia.
É aqui que assistimos ao paradoxo entre o mundo lá fora estar perdido no meio do caos, e Antonio encontrar-se nas páginas destas histórias de amor. Mas atenção, estas não são as histórias de “final feliz” de Hollywood, mas sim aquelas que estão condenadas ao fracasso. É nesta partilha da sua dor com aquela que lê e relê, que ele supera um pouco as suas agruras e se vai tentando esquecer das atrocidades da Humanidade.

