Será que assumo e me afasto?
Será que assumo e esqueço?
Será que assumo que depois de ti,
por ninguém mais o meu coração se interessou?
Será que assumo que é pelo teu olhar que espero,
Por uma solitária palavra
Que solidária com o meu semblante
Venha surgir de rompante
E trazer-me à superfície?
Tu, que de tão alto exibes com repugnância
Um olhar condescendente
Sobre o meu amor latente.
Tu, que nunca soubeste
Porque nunca quiseste
Sequer importar-te com a extravagância
Do meu sentir.
Hoje assumo que não me encontro em condições
De meramente tentar tocar outros corações
Enquanto o teu desejar.
Não tocarei sequer a ponta do dedo na pele de outrem.
Não por ti ou por alguma réstia de respeito,
Mas por esses seres encasacados de epiderme.
Não por ti, a cujos olhos não sou mais que verme
Mas por aqueles que me permitem tocar o cerne
Sem que lhes permita tocarem aquele que outrora fora escavado por ti.
Permanecerei encarcerado na minha própria carne
Até que o meu ninho se repare.
Sem reparar nas almas, serei alado
e viverei contra o meu próprio grado.
Se me perguntarem o porquê, cortem-me a língua para que de ti não fale,
Retirem-me o córtex cerebral para que em ti não pense
E furem-me os olhos para que não tenha a menor imagem de ti.
Melhor, prendam-me numa cadeira e alimentem-me por um tubo,
Privem-me de toda e qualquer liberdade até me esquecer de ti.
Porque antes de te esquecer, só vaguearei como neblina rubra
E tingirei de dor tudo por onde passar.
Até isto tudo passar...
Autoria: Ricardo Silva

