Igualdade de género no Bloco Operatório: desafios e conquistas

Nesta data, em que se assinala o Dia Internacional da Mulher, temos o privilégio de entrevistar a admirável cirurgiã, Dra. Arielle Turpin, que desempenha suas funções como Assistente Hospitalar responsável pela área de cirurgia reconstrutiva dos Serviços de Cirurgia Plástica no CHLN. Seu compromisso, dedicação e profissionalismo têm impactado diariamente a vida de muitos doentes que por aqui passam, honrando o legado de cirurgiãs pioneiras neste campo e inspirando futuras gerações de médicas. Nesta conversa inspiradora, mergulhamos na jornada desta determinada profissional, descortinando suas experiências, desafios e conquistas no campo da medicina e cirurgia.

Pergunta 1. [Revista Ressonância]:

Poderia partilhar um pouco sobre o seu percurso académico e o que a motivou a escolher a especialidade de Cirurgia Plástica?

Resposta [Dra. Arielle Turpin]:

O meu percurso académico foi o regular dentro da Escola Pública à periferia de Lisboa, onde quase sempre vivi, à excepção do segundo ano que fiz na Suíça onde a minha mãe esteve emigrada por um curto período. O único aspecto mais digno de registo terá sido ter feito, antes do Mestrado Integrado em Medicina na Universidade Nova de Lisboa, um ano na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade de Lisboa. Se não fosse de ideias tão fixas talvez tivesse continuado por lá, mas a decisão de seguir por Medicina (Humana) e mais especificamente por Cirurgia Plástica foi uma decisão muito precoce, tão precoce que mal consigo precisar. A minha memória mais longínqua, em idade pré-escolar, prende-se com uma série de desenhos animados que versava sobre a Biologia do Corpo Humano. Chamava-se ” Era Uma Vez o Corpo Humano” e lembro-me do fascínio que sentia e da ânsia por aprender mais. Depois outras paixões se somaram – a Geometria, as Artes Plásticas – e todas elas naturalmente se encontraram na Cirurgia Plástica. Entrei em Medicina para ser Cirurgiã Plástica e Reconstrutiva e fui ao longo do curso montando alternativas menos apelativas, caso esta não se concretizasse.  

Pergunta 2. [Revista Ressonância]:

A presença de mulheres cirurgiãs serve como um modelo inspirador para futuras gerações de profissionais de saúde, demonstrando que as mulheres alcançaram êxito em áreas historicamente dominadas por homens. Quais foram as suas inspirações ao longo da sua formação como cirurgiã?

Resposta [Dra. Arielle Turpin]:

A minha inspiração veio das mulheres que me rodearam e antecederam (não necessariamente com um background cirúrgico) e os meus feitos apequenam-se perante os delas. Venho de uma linhagem iminentemente matriarcal que subverte a história do Patriarcado e do Colonialismo desde há muito tempo. A Guiné-Bissau, onde nasci, é um mosaico cultural e uma das etnias, a Bijagó, de que faço parte, é das poucas que mantiveram a matriz milenar matriarcal no Continente Africano, muito à conta da resistência à subjugação colonial, até muito próximo da Luta de Libertação (Luta de Libertação esta, já agora, cujo partido motor foi fundado pelo sobejamente conhecido Amílcar Cabral, juntamente com o meu pai e outros ilustres da época, perseguidos pela polícia política e pelo governo ditatorial). A minha avó, com quem vivi em idade pré-escolar, enviuvou relativamente jovem e, após ter conhecido uma vida de opulência no meu país Natal enquanto casada, viu-se obrigada a emigrar com alguns dos filhos e netos, criando-os sozinha com o rendimento que o ofício de costureira lhe dava. A minha mãe, também emigrante, por diferentes razões, criou e formou sozinha 3 filhas. É chefe de cozinha. Eu digo, por brincadeira, que suturar e seguir um protocolo cirúrgico está-me gravado no DNA e singrar apesar de condições à partida hostis é o meu habitat natural. 

Pergunta 3. [Revista Ressonância]:

A especialidade de Cirurgia, de forma geral, nos últimos anos apresentou crescimento no número de médicas cirurgiãs. Contudo, estatísticas da Ordem dos Médicos, referentes ao mês de dezembro de 2023, indicam que, contrariamente aos dados que demonstram que mais da metade dos médicos em Portugal são mulheres, ainda há um predomínio masculino em todas as áreas das especialidades cirúrgicas no país. Acredita que o cenário atual tende a mudar?   

Resposta [Dra. Arielle Turpin]:

Penso que o cenário atual, e atendendo a esses números, não tem por onde não mudar. Sendo nós mulheres uma fatia cada vez maior dentro da área da Medicina, a homeostase naturalmente atingir-se-á quando a proporção por Especialidade refletir essas mesmas estatísticas. O que talvez afastará ainda as mulheres das áreas cirúrgicas é, porventura, a menor flexibilidade para conciliá-las com uma vida familiar presente. Num plano maior, o lançamento da Mulher para a vida laboral fora de casa não se fez com a mesma intensidade e velocidade com que se promoveu a assunção das lides domésticas pelo Homem, e esta assimetria no lar reflete-se na assimetria fora dele. 

Pergunta 4. [Revista Ressonância]:

Quais foram os principais desafios que enfrentou no seu percurso como mulher cirurgiã, e como se sentiu acolhida neste que é um ramo profissional onde predomina a mão masculina?

Resposta [Dra. Arielle Turpin]:

Os maiores desafios prenderam-se e prendem-se exatamente com a questão anterior. O equilíbrio impossível entre os papéis de mãe, mulher, filha, irmã e cirurgiã, sem que nenhum deles faça descurar os outros.

Pergunta 5. [Revista Ressonância]:

Quais são os aspetos mais gratificantes em ser uma médica cirurgiã?

Resposta [Dra. Arielle Turpin]:

Transformar e devolver qualidade de vida, seja por melhorar o contorno, seja por melhorar ou devolver a função. O diferencial e a magia da Cirurgia Plástica face às outras especialidades cirúrgicas é precisamente esse, o de “devolver a vida aos anos, mais do que os anos à vida”. 

Pergunta 6. [Revista Ressonância]:

Qual a mensagem final que gostaria de deixar para todas as mulheres que almejam ou estão nesta profissão? 

Resposta [Dra. Arielle Turpin]:

A minha mensagem final é que, sabendo que representam mais do que a si mesmas, sejam uma porta para todas as que se seguem, e que promovam a cooperação tida como tão feminina, em contraponto à competição.