Fácil

Não te preocupes, eu também te odeio. É muito mais fácil.

É muito mais fácil revirar os olhos quando te vejo, em vez de te me perder no teu olhar. É muito mais fácil fingir que não me lembro do teu aniversário, em vez de te celebrar e criar novas memórias. É muito mais fácil tentar esquecer a tua voz, do que derreter secretamente com o teu sotaque. Aquecer instantaneamente o chá no microondas em vez de ferver pacientemente a água, como tu gostavas.

É mais fácil poder cozinhar rapidamente e não ter que esperar que os legumes estejam cortados de forma simétrica. Não acordar de madrugada para te puxar para a cama, porque te esqueces constantemente de tomar conta de ti mesmo. Ou ir a casa no fim-de-semana, sem ter saudades dos teus braços, meu verdadeiro lar. É muito mais fácil ir comprar livros, sem ter que me sentar no chão, à tua espera, porque vais inspeccionar todas as prateleiras da livraria. 

É mais fácil andar à chuva agora, porque tu eras o sol. Fugir do meu país, ir ver o globo, do que ficar e lembrar os locais onde íamos construir o nosso mundo.

Por isso, não te preocupes, eu também te odeio. Solenemente. É muito mais fácil viver esta mentira que admitir a verdade: de que te amo. Incondicionalmente.

É mais fácil, mas não é melhor.

Autoria: Ana Margarida Fonseca