– Achas que ainda chove hoje?
– É, acho que sim, isto com o vento as nuvens mudam todas de sítio e nunca se sabe…
– É, pois. Mas no telejornal diziam que não.
– Pois, mas isto uma pessoa nunca sabe, sabes como é, há que andar sempre precavido.
– …
– …
– E morrer, achas que ainda morro hoje?
– Oh mulher, não digas uma coisa dessas, que disparate, qual morrer qual coisa, hoje aqui ninguém morre! Ai, cruz credo!
– Olha que não sei. Isto com a chuva nunca se sabe, as pessoas mudam de humor, ainda se lhes pode dar para se começarem a atirar dos prédios…
– Ai, que má língua que tu és! Que Deus não te oiça, quando não as portas do Inferno abrem-se para ti.
– Olha, está a pingar…
– Oh, pois é. Mas isto é só uma chuvinha, até faz bem para refrescar a alma.
– …
– …
– Olha que isto ta a piorar, se calhar íamos para casa
– Oh, era o que haveria de ser, então está um sol tão bonito.
– Mas Maria, não se vê o sol…
– Não se vê, mas há de se ver, tem calma Odete, que estás sempre com uma pressa…
– …
– …
– Parece que tinhas razão, parou mesmo de chover.
– Oh Odete, há quantos anos é que me conheces?
– Pois, é verdade. Então não achas que vá morrer ninguém hoje?
– Ainda nisso, mulher?
– O que é que queres, são pensamentos que me vêm…
Das varandas do prédio onde estas enrugadas mulheres repousavam, vendo o tempo passar à frente dos seus olhos, começam a chover homens. Não por elas, não para elas. E com brutidão se vão despedaçando na calçada, tais bonecos de Lego. Um braço, uma perna, uns olhos e miolos que criam uma nuvem sangrenta. Gritam, agoniados, os que não morreram, mas que vêem o seu braço preso por tendões, os seus ossos a furar a sua pele e a sua vida a esvair-se lentamente. Um dos homens cai em cima da Odete, que solta um berro ensurdecedor. O homem morre instantaneamente e Odete geme de dor.
As suas últimas palavras foram:
– Vês Maria? Eu disse-te que ainda morria hoje.

