Dois velhos jogam palavras ao vazio
Como beatas no chão, num bar seboso.
Nos copos deslavados, adivinham-se pedaços da sua carne labial
De tanto o tempo a que estes se colaram.
Dois velhos, mais velhos que o relógio, mais ressequidos que o mar.
Tão velhos que a sua pele é mais quebradiça que os seus ossos
E os seus olhos mais baços que o vinho.
Nada dizem, a sua mente é um turbilhão de páginas brancas
E as horas passam como penas num rabo de bebé.
A vida é uma tormenta para quem dela tem consciência
Ou para quem tem a paciência de a olhar nos olhos.
Como a um tigre.
Os ponteiros são um tigre, do mais feroz
E devoram-me as entranhas sem pedir licença.
Mas estes velhos, que ninguém foram e estão para a morte como a unha para a carne,
Olham o tigre com desdém,
Estendem-lhe um manguito
E bafam-lhe para cima.
A sua língua, mais preta que o xaile de fadista
Do calor infernal do cancro pulmonar.
A reforma não chega nem para o pão,
Pois a cerveja alimenta.
Uma barriga de farturas
É uma visão de amarguras.
E o velho inimportunável continua a beber e a fumar.
Comes e bebes, até comeres o último de nós,
Com os teus grossos dedos de trabalho.
Escória humana que o ócio alimentas
É mais um dia que aguentas,
Como sempre, embriagado.
De que vale aquele que veio ao mundo
Sem a ele dar valor?
Sem sequer sentir a dor
Da facada do segundo?

