A flor da idade é o Cravo Vermelho

— Ó Lourdes, pergunta à menina se quer grinaldas no bolo.

— Não é menina, é moça!

— Ó Lourdes, pergunta à moça se quer balões de todas as cores.

— Não é moça, é senhora!

— Ó Lourdes, pergunta à senhora se quer… o que é que a senhora quer este ano?

— A Dona Democracia sempre quis apenas uma coisa: liberdade.

Os rumores costumam andar de boca em boca e ouvido em ouvido, mas naquele dia ensolarado da aldeia, os rumores corriam, voavam, ecoavam com o vento. 

Tinha chegado o dia. O dia em que a mulher mais adorada da aldeia ia completar os seus importantíssimos 50 anos de vida, uma idade importante para uma senhora importante. Todos os anos é organizada uma grande celebração, mas este ano é ainda maior. A sua amiga Lourdes encarrega-se de grande parte das tarefas, incluindo a distribuição de cravos vermelhos pelos habitantes. Percorre ruas e ruelas de caixa cheia dessas lindas flores, caixa que vai ficando cada vez mais vazia. Olha para o relógio impaciente. A aniversariante ficou de ir ter com ela para poder dar início à celebração e já deveria ter chegado. 

Lourdes olha para trás e como que numa brisa lá vem ela em passos firmes, a saia do vestido branco esvoaça pela rua fora e o seu sorriso brilha mais do que o sol. Quando chega junto da amiga, retira-lhe um dos cravos vermelhos da caixa e põe-no ao peito, no bolso do vestido. Depois não pára, continua a andar e a sorrir pelo resto da aldeia e enquanto sorri os seus olhos verdes acompanham o gesto e estes conseguem ver:

Conseguem ver a esperança nos rostos felizes dos habitantes com quem se cruza … conseguem ver a educação florescer como flores num prado quando passa pela escola… conseguem ver a liberdade nas palavras ditas e nas exclamações trocadas, nos segredos murmurados apenas por vontade e não por obrigação… conseguem ver o vermelho não só no seu peito, mas também noutros peitos, numa orelha ou noutra e entre os dedos magros de uma criança, mas, acima de tudo, conseguem ver as mulheres. Como é bom ver as mulheres! Lourdes contou-lhe que, antes de a amiga nascer, as mulheres não se viam, eram vultos fantasmagóricos, sôfregos e mudos, sem um pingo de cor para tingir as suas almas, nem isso lhes era possível conceder. Mas neste dia, 25 de Abril, as cores transbordam-lhes pela mente fora e saem do corpo em forma de voz, uma voz que se faz ouvir e que nunca mais se calará.

As mulheres não são de Abril, mas Abril é das mulheres.

A flor da idade é o cravo vermelho.

Democracia e Liberdade

São o feminino alheio.

Autoria: Augusta Parsotam