Franz Xaver Kappus publica no livro Cartas a um jovem poeta as cartas que recebeu do poeta, escritor e seu correspondente Rainer Maria Rilke. Talvez, em termos modernos, possa ser considerado um livro de auto-ajuda (dado o seu cariz unidirecional – do Sr. Rilke para o Sr. Kappus – e de auxílio prestado do primeiro ao segundo no seu percurso de aspirante poeta), no entanto, não o definiria assim.
O que é auto-ajuda? “Auto” pode tanto referir-se a um primeiro sujeito, a um automatismo ou um ato solene; “ajuda”, por sua vez, emprega-se enquanto sinónimo de auxílio ou até aperfeiçoamento. Infelizmente, todas as opções são corretas: um livro de auto-ajuda é adquirido por um desejo próprio de se ajudar, a leitura em si é um ato passivo de “pilotagem automática”, e todos sabemos que as aulas teóricas são atos solenes para auxiliar o nosso estudo. No entanto, todos sabemos que aulas teóricas (tal como muitos livros de auto-ajuda) não são assim tão proveitosas.
“(…) queria apenas aconselhá-lo a crescer tranquila e seriamente ao longo do seu desenvolvimento; o Senhor não poderá perturbá-lo mais violentamente do que quando olhar para fora e esperar que de fora lhe chegue resposta para perguntas a que só o seu sentir mais íntimo, na sua hora mais silenciosa, poderá porventura responder.”. Neste excerto do livro vemos a antítese da auto-ajuda. A postura entre mentor e mentorando tem como base o avanço partindo do aprendiz, que descobre as suas vontades e explora-as como uma criança a conhecer o mundo, ao seu ritmo, e de forma ativa e consciente. O ensino deve encarar-se não como um aconselhamento técnico, mas sim como uma demonstração da realidade vista por Rilke e a reafirmação de que o interesse e progresso poderia apenas surgir do empenho de Kappus. Não procurar o escrutínio externo ou a voz de outrem, mas o nosso próprio caminho.
O evoluir da proximidade destes dois amigos ao longo da passagem do tempo e a partilha de vivências simples conferem um ar de leveza e nostalgia a um livro repleto de lições de vida como esta, que espero ser fulcral para o futuro da pedagogia.
Por outro lado, sendo a base do livro a percepção da realidade de um único homem, partindo da sua forma de pensar, este pode ser, por vezes, exaustivo em linhas racionais não tão acessíveis a quem as lê. Não existe uma história a seguir que esmiúce cada pormenor e interpretação desta filosofia, que em texto corrido será certamente cansativa para alguns.
Assim, concluo reforçando que tal como Rilke vê a realidade de uma forma, também eu encontrei no livro os assuntos em que já meditava, não os que, porventura, te interessam mais. Se és interessado em formas de pensar e viver, em filosofia, quiseres apenas ler algo diferente ou estiveres indeciso no que oferecer a alguém, esta é uma leitura curta onde todos encontrarão alguma maestria merecedora de ser oferecida como presente.
(Alexandre Soares)

