O tom era espesso e caramelizado, arrastava-se pela multidão sussurrando as horas tardias e dispersava-se no meio da azáfama do regresso a casa. Tal e qual buzina vagarosa, o fumo do cachimbo perfumava a gélida noite gaiata e fazia-me enlouquecer, sonhando.
Quando olhava as estrelas, eu sabia que elas pertenciam à selvagem lua, eram livres e brilhavam, contudo, desconhecia porque eram tão misteriosas quando as olhávamos de olhos fechados. Nunca saberei.
Gostava de pensar que todos controlávamos o mundo, tínhamos tudo domado, tudo previsto e era, por isso, que a segurança do futuro me era tão vagarosa, mas familiar. Os meus amigos haviam já professado os seus desejos e tinham já filhos. Eu tinha sonhos, mas ninguém por perto para mos desacreditar. Só conseguia pensar na poesia malfadada de Pessoa e na excitação decrépita dos fins de Verão. Recordo-me, vagamente, do arrastar das palavras entupidas e trepidantes que se encavalitavam nas fantasias de criança enquanto o tempo ainda era vasto, mais que o mar encaixante.
Embora fosse algo que se entoasse, para mim, a infância foi um hino fascista, sem cansaço nem imaginação, apenas um grande bolbo informe de música arrefecida e aqui permanecida. Era eu quem assim ficava – não estava perdida nem acidentalmente encontrada. Percebi que precisava de conhecer quem eu sempre busquei entender e que, infelizmente, sempre se recusou a corresponder. Engraçado como estamos tão perto da felicidade, a testemunhar a ironia insana da história, mas decidimos escolher o feitiço burguês de anuir empalados.
Bem, mas era essa a situação – complicada –, na forma curta. Tinha aspirado a crescer, e, no entanto, era como presenciar uma união algo sádica entre a menina que fui e outra que não a quer pousar. Os meus amigos tinham-me avisado, eu senti a costura a mergulhar e agora dou por mim ainda a procurar o nó final. De qualquer das formas, pressinto uma rebeldia gaiata, muito pouco puritana enovelar-se por entre a minha dedicação juvenil e que se apressa para chegar sem avisar. Serei, pois, mais uma fabricação barata, embalada por meninos de infância roubada para um consumidor do outro lado do mundo, inerte a todas estas truncações demasiado variadas?

