O Sopro do Coração

O Tiago aconselhou-me a não ocupar a minha cabeça com “pessoas de uma noite só”, com a banalidade de quem ignora o sopro do seu coração

Relações fugazes e violentas têm circulado nos grandes vasos da sociedade. São uma droga a que recorremos pelo estado de transitoriedade que apenas um narcómano tange.

Ultimamente, resta apenas o resíduo circunflexo da paixão, um sentimento de dispneia, no

qual esmigalhamos qualquer saudade contra o chão.

Mas então, o que me seduz? Serão as imensas palavras magras entre orgasmos brutos? Ou será culpada a compulsão em vomitar, depois de aberto e comido, para não ocupar espaço dentro de mim? Quando é que nos vamos cansar destas relações bulímicas e aprender a digerir todos os pedacinhos, todos os momentos?

Isto acaba por ser uma autocrítica, não quero cair em hipocrisia. Eu ajo friamente, é verdade sim, porém gosto de pensar de forma quentinha. Sinto-me frequentemente impostor, não conseguindo evitar pensar que, atualmente, o sentimentalismo não passa de uma distração. Há quem goste e há quem não goste, mas em ambos os casos há quem o seja realmente e há quem o finja. A minha situação neste espetro é inconstante. Será que a minha tentativa insólita de racionalizar os sentimentos e digeri-los letra a letra faz de mim um sentimental? Estarei eu a viver os sentimentos ou a guardá-los em papel para depois?

Uma coisa é certa, a cada dia que passa, a cada beijo que troco eu desconstruo-me e o borrão torna-se mais patente. Estou farto de ser rascunho, quero ser arte! Aguardo esfomeadamente o dia em que aceito as minhas margens e pinto a minha vida. Até lá fico-me pelo carvão.

Se Monet não tivesse demorado três décadas a pintar nenúfares já teria perdido a esperança. Resta-me aguardar ser tão belo pelos trinta como um nenúfar de Monet, que à minha semelhança tem as margens irregulares, mas uma presença absoluta.

Autoria: AMM

Créditos de ilustração: “I can’t paint” – Rohan Hande