(Des)gosto muito de mim

Não é poema belo, este. Não é uma serenata cantada por sereias ao amanhecer nem uma prosa desconhecida da era Antiga. Não é um conto romanticamente apreciável nem uma história para adormecer os mais pequeninos. É apenas o agora, o real agora.O agora é o século XXI e este devaneio só ganha banalidade se assim quiserem que seja. Não importa o dia, hora, mês, o que passarei a relatar começou com um passo a passo.Passo a passo ela entrou na casa de banho pública do Centro Comercial. Eu já estava lá dentro e observei-a, não tinha expressão, apenas um olhar contido e vago. Não sabia o que pensava nem o que se tinha passado antes de entrar ali, só sei que não olhava para os lados e continuava em frente quase sem pestanejar.Mesmo a uma distância considerável sentia a sua alma dura e fria, coberta com um manto de dor. O coração que não bombeia estava vazio e o que bombeia só lançava mágoa para o corpo. Só tinha espelhos ao seu redor, mas seu reflexo não enxergava. Parou a meio antes das cabines e depois, como que num momento de lucidez num estado amnésico profundo, virou-se num sobressalto em direção à saída. Caminhava em passadas ligeiras e o olhar não saía do chão. Não, não podia sair. Tomou uma má decisão, não se pode encontrar uma saída com os olhos em cativeiro. Tramou-se e quando deu por si, estava em frente a um espelho, presa, acorrentada aos seus pensamentos. Longas ribeiras de lágrimas corriam pelo seu rosto e os soluços tornaram-se tão fortes que parecia que o seu coração tentava fugir pela garganta. Aproximei-me e pus-me atrás dela, tentando perceber o que via de tão assustador naquele espelho. Perguntei-lhe porque é que chorava e ela disse-me que espelhos eram o seu maior medo e que cada vez que olhava para um não conseguia desolhar e apenas chorava, chorava e chorava até os olhos se fartarem e procurarem enxergar algo diferente. Entre soluços contou-me uma história que jamais esquecerei.

“Um dia, quando era mais nova, estava a estudar tranquilamente quando uma das minhas amigas veio ter comigo à sala de estudo em pânico, os seus olhos vibravam de preocupação e as pernas tremiam de medo. Eu tentei acalmá-la, confusa, mas tudo o que ela me conseguia dizer era que estava uma besta na casa de banho, um monstro como nunca vira e que precisava de vir depressa, para eu poder ver por mim mesma. Não acreditei no que dizia, mas não podia ignorar o seu estado, preocupava-me com ela. Segui-a até à casa de banho e estava lá um restante grupo de colegas meus, mas não havia sinal de besta alguma. Perguntei-lhe onde estava a besta com um ar cético e ela disse:

-Não vês? Está ali.- e apontou para o espelho, para o meu reflexo e todos se desataram a rir.”

Disse-me que nunca mais foi a mesma depois desse dia, disse-me que por muito que tivesse sido uma brincadeira, que as palavras e os risos lhe tinham mordido a alma e a tinham transformado, disse-me que agora, cada vez que olha no espelho vê a besta, o monstro horrendo que é ela própria.

Comovida, limpei-lhe as lágrimas do rosto, olhei para o seu reflexo e disse:

“As bestas são criaturas que as pessoas temem porque gostariam de ser tão grandiosas e ferozes quanto elas, quanto tu. O verdadeiro monstro horrendo é a falta de boa gente no mundo.”