Nunca soube dizer as palavras certas, definir os rumos exatos nem desenhar com as formas corretas. Nunca soube ser boa, principalmente, comigo mesma. Sabia sorrir e correr que nem uma maluca, mas não sabia fazê-lo para mim. Esta tendência nefasta de anuir sem inquirir deixou-me, muitas vezes, à beira da projeção de uma menina não minha, que correspondia à métrica e não dizia objeções. Por muito tempo adoeci nesta formatação obsessiva que, – soube mais tarde –, é comum a muita gente. Ficar entubado numa sinfonia díspar de sensações/emoções é como disparar sobre nós próprios e, simultaneamente, ficar preocupado com os buracos pintalgados pelas balas no corpo. Ainda bem que o tempo se desenrolou ao longo da minha fraqueza e a minha família se manteve acoplada à força tímida que brotava em mim, porque foram ambos meus pincéis em tela pequena.
Mesmo agora, sabendo mais um pouco do jogo, continuo a escolher as regras, as etapas adversas, complicadas, dolorosas, estonteantes que me tiram o fôlego e me lançam em espiral até ao centro da Terra. Quando me retiro e acredito na viagem de volta, consigo escalar lugares que nunca imaginei, sem corda nem demora, porque não possuo nada a não ser a promessa, mas certeza de ter estado acima donde me encontro. Assim, tenho estas viagens na minha passagem e outras histórias que deixei por terminar, não por desconhecer o que escrever, mas por ter medo de as viver; outras, porque esconderam cenários inúteis e outras manias desesperadas. E é ridiculamente engraçado o quão distante me sinto de certas lombas atrapalhadas, como se me arrependesse de ter ficado inerte numa situação domável, que se ausentava de mim para poder ser evitada.
Enfim, são episódios demonstrados que me ensinaram a respirar na boca de cena e me preparam, ainda, para certas falácias ensaiadas. Todavia, não merecem julgamento, porque são naturalmente suscetíveis de ocorrer – entram e saem para nos apercebermos deles, simplesmente. Depois, cada um pressiona as teclas que tiver, mesmo se não souber tocar e criará uma harmonia única e inigualável para tal ocorrência. Fugir soa atabalhoado e apressado; gritar soa áspero e desafinado; chorar soa a essência amargurada; rir a uma festa interminável, feita de pessoas e luzes misturadas.
Autoria: Maria Vicente Teixeira

