É na obra “1984” que nos deparamos com a reflexão sombria, mas necessária, da dicotomia da mentira e verdade, da volatilidade da liberdade individual e da fragilidade da condição humana.
De facto, é feita uma reflexão sobre a problemática da adoração cega, na confiança que é depositada de forma desmedida num “Big Brother” que tudo vê assumindo um papel omnipresente e de controlo absoluto. É necessário então adotar uma postura de “revolta silenciosa” perante o que nos rodeia questionando sempre o que nos é ensinado e relatado.
Para além disso, a arte do “duplopensar” é um dos elementos mais abordados ao longo deste romance. A capacidade de manter duas crenças contraditórias ao mesmo tempo e de as aceitar é um reflexo da complexidade humana. Não obstante, este direito à verdade objetiva e à liberdade de pensamento é rapidamente castrada mediante uma propaganda dirigida à reescrita da história e à disseminação de informação manipulada.
É necessário também referir a total desumanização do ser humano que é feita recorrendo ao isolamento e ao controlo não apenas do binómio corpo-mente, mas também pela destruição de qualquer resquício de laços emocionais ou comunitários. Assim sendo, amar, abraçar e o querer simplesmente partilhar convertem-se em atos de pura rebelião e de disrupção dos ideais sociais.
Por fim, este livro permite-nos ter a consciência que, enquanto filhos da era contemporânea, nunca nos questionamos o que é a liberdade, tomamos a possibilidade de dizer que “dois mais dois são quatro” como garantida e acabamos por negligenciar o poder que nos é dado ao sermos detentores tanto dos nossos “comos” como dos nossos “porquês”.
Ser livre é, ironicamente, ter o direito à complexidade mais básica, ser um sim e não ao mesmo tempo e questionar abertamente o presente por incerteza em quem nos vai conduzir para o futuro.
“1984” é uma advertência intemporal, um grito de despertar, uma necessidade de ter liberdade para pensar, para amar e para questionar.
Fica apenas em aberto a questão se seremos nós verdadeiramente livres ou se seremos meros peões que fazem parte do plano que o “Big Brother” está a orquestrar.

