O vento mexe, nas pastagens secas de vida; encalha nas palhas de trigo e cevada já amontoadas entre si. E eu, eu próprio, eu mesmo, eu, e não outro senão eu, medito sobre o vento e sobre a terra, sobre as árvores e sobre o pasto. Porque eu vejo e ouço, e tudo é nítido e simples; as coisas não são senão as coisas que são. Elas estão lá e eu olho sobre elas, não penso; estou. Estou e não sou, porque ser é pensar e estar é meditar. Tudo é simples porque li a memória da terra castanha debaixo dos meus pés, e porque escrevo no momento a memória desses torrões de terra. O comboio carregou e descarregou, não pensei. Que feliz de mim, que vi e escrevi, e não houve nada que fosse mais profundo que a minha universalidade para com o céu azul, para com o vento transparente, vazio e cheio de si, para com o trigo, a cevada, a aveia, as alfarrobeiras, as figueiras e tudo quanto é verde. Neste meu tempo em que vivi e não sabia que vivia; porque para viver não é preciso saber que se vive, é só preciso viver. Que simplicidade que é estar. Sou nada, mas é tudo quanto posso ser, e que bom ser tão pouco! Medito sobre o mundo, pelas estrada dos sentidos, não sentido nada que não seja o sentido de sentir sem pensar.
Autoria: Bernardo Rodrigues

