Quando puder voltar a acordar da recusa em que me afundei, avisa-me.
No centro do reviver o que não aconteceu entre a romantização do que nunca foi assim tão bom, exceto nas poucas vezes em que o foi, deixo o tempo passar, trazendo um pouco mais de lembrança e melancolia ao sítio que já não se pauta de cores vívidas, memórias sonoras e minutos fluorescentes e trémulos de entusiasmo.
Contemplo o privilégio que com o passado partilha a génese. Ver que pronomes se atribuem a quem vê de fora as suas ações, a quem não é autor nem outrora observador. Ver o que se chamam os “des-eus” aos seus “eus” abandonados e levados por trela para as obrigações a que se impõem. Sentir o que se chamam os que não se chamam, que idealizam um “eu” que perde a cada passo uma letra das poucas que o sustentam e a atira para o nosso colo. Tem o sofrimento contornos mais poéticos, esteticamente encantadores de masoquismo timbrados? Tem a memória tinteiro escasso, ou mais tinta que memória? Tem o fim espaço na nossa estante ?
Entre as metáforas mastigadas e as questões respondidas, no limiar da tristeza que se funde com a raiva e que da agonia rasgada começa a mimetizar a forma, continuamos. Mas quando puder acordar da escravidão de aceitação, da negação do que já não é, da esperança infantil e mimada de uma saudade futurista, avisa-me… Grita da frente do caminho, do alto de ti e deste mundo a que chamamos nosso por nunca termos percebido que não o era. Avisa-me para que possa ignorar-te conscientemente e escolher continuar o meu problema, dessa vez, sabendo que não me interromperás o raciocínio.
Como nada é suficiente, numa tragédia de tantos autores e mais sujeitos… como terá sequer surgido a tentação de que assim não fosse? Se conseguisse mudar, que não consigo, tal como já fiz questão de provar, contribuindo para a construção da definição de inutilidade que consta nos dicionários de muitas das minhas contracenas, mudaria para pior, ou não fosse essa a tendência inerente à minha condição de insuficiência crónica, de “quase” congénito e “eu” fatal.
Questiono que outros momentos ainda nos podem esperar, debaixo de segundos específicos, aguardando o passar desse instante para saltarem para os nossos dias. Que momentos desses que me disse esperar, nas mensagens que, de tanto reler, finjo não saber de cor.
Constantemente, gritamos para uma tela e afogamo-nos em museus que nem sentimos valer a pena visitar. Agora, temos os pincéis no chão e as mãos cheias de tinta. Seca.
CO RESSONÂNCIA

