Infância

Há algo de romântico sobre adormecer nos sofás.

O cansaço que exala dos poros do homem trabalhador

E que culmina num mergulho a pique para as ondas de um sofá.

Um ronco, ensurdecedor, mas quase mudo,
No meio de tantos roncos noturnos.

Alguém faz o jantar, enquanto eu me sento no tapete e vejo televisão.

A luz fraca e amarela do candeeiro já velho aconchega a minha imaginação enquanto vejo os bonecos.

Oiço a água a ferver na panela. Arroz, quase de certeza.

A manta que o meu pai está a usar é a minha preferida, porque é que ele teve de escolher aquela?

Pego no meu carrinho da Hot Wheels e finjo que os móveis são rampas, finjo que ainda sou uma criança e que os carros têm asas e eu infância eterna.

Da cozinha, adjacente à sala, onde me encontro,
Flutuam aromas a carne, calmamente temperada com pimenta e sal.

Nada de mais, são os condimentos que a minha mãe usa diariamente.

É só mais um dia normal, porque haveria de fazer diferente?

Acho que o jantar é peru, um grande peito de peru, que ela vai cortar às fatias, apenas para reclamarmos do facto de terem ficado muito grossas.

“Venham jantar!”, berra a mãe do outro lado da parede.

Eu ignoro. O coitado do meu pai dorme, ou finge que o faz e ninguém lhe responde.

“Venham jantar, não vou chamar outra vez!” berra ela indignada.

Eu levanto-me, já sabendo que vou levar nas orelhas e acordo o meu pai, que desorientado se levanta. E vamos para a cozinha.

A televisão, coberta por uma névoa rosa e arroxeada, por conta da idade, parece que se liga automaticamente, à nossa chegada.

O telejornal? Queria o Zig Zag… Ao menos ponham no Panda Biggs, onde dá o Naruto!
Sento-me no mesmo banco em que me sento há 20 anos.

De madeira, envernizado (e mal da minha mãe se não estivesse, dava-lhe uma coisinha má), com um buraco no centro, no qual dá para agarrar.

Baloiço-me nele enquanto espero a sopa, como sempre fiz. Como faço há 20 anos.

E ele cai ao chão, mas eu já não caio com ele. Faz um estrondo enorme e o meu pai grita, a minha mãe berra e todos se zangam comigo por ter baloiçado outra vez.

A minha mãe coloca-me a sopa no prato ainda fumegante, e eu como. Delicio-me com a sopa que a minha mãe passou, como eu gosto, toda passadinha.

Bebo o sumo, ora demasiado doce, ora demasiado aguado, por conta do concentrado que usamos.

E finjo importar-me com as notícias, quando só queria estar a ver as Aventuras de Marco e Gina ou o Martim Manhã…

E como previsto, o meu pai reclama da grossura das fatias.

E como previsto, o arroz estava empapado. Mas é como a minha mãe o faz, aprendi a gostar dele assim.

Ultimamente, tem feito basmati e fica uma delícia.

Soltinho, perfeito. Mas tenho saudades do arroz empapado da minha mãe.

Ai, eu tenho saudades da minha mãe.

Lágrimas escorrem-me ao escrever estas pobres palavras.

Coitadas delas, nunca pediram para ser escritas, estavam tão bem no seu canto, provavelmente a fumar cigarros e jogar à sueca!

Mas os cigarros, as cervejas, a música, a droga, os carros, as pessoas, tudo e nada! Nada me tira as saudades que eu tenho da minha mãe!

Nada me tira as saudades que tenho dos tempos de criança, das brincadeiras, do parque de estacionamento para os carrinhos, dos Playmobil, dos LEGO, do jogo de Monopólio que nunca acabava!

Nada apaga as memórias do parque infantil ao lado do Largo dos Combatentes e daquele escorrega contorcido, que hoje foi demolido e transformado numa homenagem à Guerra Colonial!

Nada me faz esquecer os jogos de futebol com o meu avô na passagem da casa, onde o portão da garagem era a baliza e ele me ralhava por eu chutar com muita força!

E choro compulsivamente, ainda mais forte do que neste momento choro de cada vez que me lembro dos natais de criança! Esses eternos natais que nunca mais se vão repetir!

Seja porque uns partiram, outros se zangaram, ou simplesmente porque somos velhos demais para receber brinquedos e passar a noite toda acordados na ânsia de abrir os presentes.

Nunca mais terei os aniversários em que toda a família se juntavaunia, naquela garagem convertida em salão de festas. Onde as ferramentas se escondiam com panos e toalhas, a mesa era feita de uma ripa de madeira em cima de um suporte de metal e o bolo tinha a cara do meu super herói favorito.

Desculpa mãe. Nunca mais terás o teu filho de volta e eu nunca mais terei a minha mãe.

Desculpa pai. Nunca mais terás o teu filho de volta e eu nunca mais terei o meu pai.

Acordo… ainda sobre o efeito do LSD que tomei, no velho sofá da sala, do apartamento dos meus pais, corroído pelo tempo. Não vale a pena procurá-los, estão mortos há muito. Só sobrei eu.

E as cinzas do passado. De um passado, do único ao qual dava tudo para poder voltar.

Agora não há retorno. Tudo foi feito e tudo foi dito.

As minhas primas não me falam. Enterrei o meu avô paterno há 5 anos e o outro há 7.

A minha avó deserdou-me ao saber que me drogo e que desisti da faculdade.

Já nem a minha madrinha, que todos os fins de semana me ligava, quer saber de mim.

Estou perdido. Faço oficialmente parte da multidão em vez de caminhar por entre ela.

Vou à janela, fumar um cigarro e tentar acalmar as lágrimas, que já negras pintam o meu chão, como o alcatrão pinta as estradas.

Abro-a e acendo o cigarro. Dou um bafo e sinto o fumo quente e matador a dilatar os meus alvéolos.

Matem-me.

Mando o cigarro lá para baixo e mesmo antes de ele tocar o chão, vou com ele também, para ver se lá chego antes dele.

Não morri. Dói-me tudo, mas não me consigo mexer. O meu braço está a dois metros de distância, quase a tocar no cigarro, que ainda aceso, vai lançando o seu fumo na atmosfera. Que raio de ideia a minha. Agora não há nada a fazer. Talvez a culpa tenha sido do LSD. Talvez da mágoa funda do meu coração. Outra imagem da infância me vem à mente. Daquela manhã gélida em que os meus pais me levaram a passear a São Pedro de Moel. E eu queria um doce.

Normalmente, haveria barraquinhas abertas a vender doces, por toda a praça. Mas naquela manhã, repleta de nevoeiro? Apenas uma. Pedi um pastel de nata, mas ao ver que veio sem colher, fiz uma birra. Só gostava de comer pastéis de nata com colher. O meu pai chateou-se, comeu o pastel de nata e levou-me para o carro. Fomos embora. É a memória mais antiga que tenho. Ou que tinha.

Sinto os meus olhos fecharem enquanto o cigarro acaba de queimar.

Adeus mãe.

Adeus pai.

Obrigado.

Autoria: Ricardo Silva