Conto de Natal

O sol já se via pequenino, distante no horizonte, quando o menino se abrigou debaixo da copa de uma árvore. Era a maior árvore da floresta, um gigante que se erguia sobre o resto da floresta. Todas as outras árvores à sua volta não passavam de acessórios de uma paisagem cujo coração era aquele tronco robusto de folhagem densa. As raízes da árvore, ásperas e sinuosas, entrelaçavam-se com o chão húmido e frio, e o menino tentava aninhar-se nelas. Os últimos raios de sol que insistiam em trespassar eram de um laranja que, na sua mão, parecia ter purpurinas. O vento soprava levemente e fazia-lhe cócegas no nariz, mas ele não sentia vontade de esboçar nem um pequeno sorriso. Estava sozinho naquele fim de tarde, com o seu coração envolvido pela melancolia que pintava a floresta. Não sabia como havia chegado ali nem onde estava e, por isso, decidiu entregar-se ao cansaço. 
Nada mais se ouvia na floresta a não ser o assobio da brisa nas folhas, que dançavam juntas numa envolvente desarmonia, e o cantar dos pássaros que provavelmente chamavam casa àquela floresta. Mas havia um piar que despertava algo no menino, que se destacava de todos os outros. Não se fundia com o restante ecossistema, era agudo e insistente, como se uma agulha penetrasse a sua cabeça. Num salto, o rapaz levantou-se e, girando sobre os calcanhares, lançou um olhar de relance sobre as suas imediações. Frustrado, o som persistia e era cada vez mais alto, qual desafio.
Inesperadamente, um galho desprendeu-se da copa da árvore e caiu junto aos seus pés, como se tivesse sido lançado intencionalmente. Entre os ramos, destacava-se um ponto castanho quase impercetível. Era um pássaro, pequeno e de plumagem discreta, de tons beges e castanhos, uma perfeita camuflagem. Os seus olhos brilhavam numa mistura de malícia e diversão, numa expressão provocadora.
— Se visses o que te rodeia com olhos de ver, ter-me-ias encontrado mais depressa.
O menino franziu as sobrancelhas e cruzou os braços sobre o peito. A provocação do pássaro despertou nele um sentimento de desagrado, não para com o animal, mas para consigo mesmo. Com cada piar, era como se aquilo que o feria abrisse cada vez mais a ferida. Há já algum tempo que se notava mais desatento e sem rumo. Enquanto o mundo à sua volta seguia ao seu ritmo, com os pássaros a cantar e as folhas a dançar ao vento, ele permanecia imóvel, preso a um momento que teimava em não avançar.
— O que queres de mim, pássaro? Não tenho nada para te oferecer. Não sei onde estou nem para onde vou. – O menino soltou um longo suspiro - Acho que, na verdade, não sei nada.
O estranho animal observou atentamente o menino e, num instante, abriu as asas e voou até junto dele. Ficaram frente a frente.
— Permite-me corrigir-te, não sou um pássaro qualquer. Sou um pardal, da família Passaridae; no meu caso, um Passer domesticus, também conhecido como pardal-do-telhado. Tenho um bico curto e pontiagudo, gosto de comer sementes e grãos, e tenho muitas penas castanhas. Alguma vez viste um papagaio de penas castanhas?
O pardal terminou o seu discurso com uma gargalhada. Estava agora de cabeça erguida, não só a encarar o jovem rapaz, como também a exibir com orgulho a sua sublime plumagem.
— E como não sabes para onde vais? Vais ficar aqui sentado a ver as estações mudar? Isso parece-me extremamente aborrecido. Não há algum sítio para onde tenhas que ir? Certamente que há alguém à tua espera.
— Acho que tenho de ir para casa, mas não me lembro do caminho. – Envergonhado, o menino baixou a cabeça e começou a afastar-se do pardal. – Ultimamente, não tenho tido grande vontade de fazer o que quer que seja. A vida é tão difícil, às vezes. Tenho de fazer e decidir coisas todos os dias, mas sinto-me tão cansado. Ando tão distraído que nem sei como vim aqui parar.
O pardal pousou no ombro do menino e olhou-o com simpatia e encorajamento.
— Às vezes, a vida é muito parecida com uma floresta, há muitos caminhos e todos eles apontam para uma jornada dura e demorada. No entanto, eu acredito que ela se torna muito mais divertida quando é feita com um amigo e um bom dedo de conversa. Está decidido! Serei o teu companheiro até encontrares o teu caminho de volta.
As bochechas frias do menino ergueram-se num pequeno sorriso. Sentiu-se um pouco mais quente por dentro. Atentou no ambiente que o rodeava e, onde esperava ver apenas árvores e mais árvores, avistou um vulto majestoso escondido no esqueleto da floresta. Era um animal de grande e musculoso porte e de olhos intensos, que tinham a capacidade de penetrar a escuridão que se instalava. A familiaridade da sua figura chamava pelo menino, como se tratasse de um íman que o puxava na sua direção, pelo que, quando desatou a correr, ele seguiu-a.
O pardal seguiu prontamente o rapaz, que já corria por entre o arvoredo para tentar acompanhar aquela presença desconhecida. Porém, quanto mais avançavam, maior era a distância que se interpunha entre eles e a figura misteriosa, até que se encontraram num impasse. Estavam num cruzamento, eram dois os caminhos possíveis, e não havia sinal do vulto. O pardal e o menino trocaram olhares confusos e preocupados. Não faziam a menor ideia do caminho que deveriam tomar.
— E agora? Qual é o caminho que devemos seguir?
O menino fitou o chão e, pela primeira vez, apercebeu-se de que havia alguma neve no chão. O mais provável era ter nevado uns dias antes e que o sol se tivesse encarregue de derreter grande parte dela. Lembrou-se de como adorava o inverno, de como se divertia na altura do Natal, quando nunca falhava cair neve, e de como fora feliz nesses momentos. A manta branca que cobria o chão não era suficiente para fazer um boneco de neve, mas foi o bastante para o recordar da alegria da época natalícia, que há muito esquecera. Com todo aquele fogo de sentimentos redescobertos, o menino não conseguiu evitar sorrir.
Olhando de novo em frente, o menino foi surpreendido pela presença de um mocho. Estava instalado sobre uma pedra perfeitamente colocada no ponto onde o caminho que haviam tomado se separava em dois. Estes aparentavam ser idênticos, no entanto, um seguia para a esquerda e o outro para a direita. O menino não entendeu como poderiam não ter notado a companhia daquele ser. Tinha um ar sereno e misterioso, a sua silhueta suave e silenciosa emergia nas sombras das árvores. Os seus grandes olhos redondos estavam atentos a cada um dos seus movimentos. As penas, de um tom suave de cinza e castanho, brilhavam, iluminadas pelos poucos raios de sol que ainda contornavam as copas das árvores. Ali estava ele, imóvel e sem emitir qualquer som, permitindo que a inquietação crescente ocupasse espaço dentro do menino.
— Eu gosto de contemplar a vida, quer seja na presença do sol, quer na da lua. Ser testemunha dos segredos de uma floresta é algo que merece ser experienciadado, independentemente da gravidade da noite e da intensidade do dia.
Parecia que a criatura havia lido os pensamentos do menino, o que, ao invés de o deixar ainda mais desconcertado, lhe trouxe um insólito conforto que desejava receber de braços abertos.
— Está a terminar um belo dia de sol e o meu pensamento nunca esteve tão nublado.
— Aprende-se muito numa jornada pela noite, mas é certo que a minha altura preferida do dia é a aurora. O começo de um novo dia. A promessa de uma nova oportunidade para descobrir, viver aventuras e sentir. Além disso, as coisas são mais claras à luz do dia.
Mal o mocho terminou, um feixe de luz irradiou o menino. Vinha de um dos caminhos e, ao decidir aproximar-se da sua fonte, analisou o objeto. Era um guizo de superfície metálica polida, pequeno e dourado, que refletia cada raio do ocaso em tons dourados carregados de pontos brilhantes. O menino girou-o na sua mão e, deste, ouviu um som doce e melodioso que o inundou de memórias de casa. De repente, era véspera de Natal e conseguia cheirar os doces que faziam crescer água na boca, ouvir as gargalhadas da família sentada à volta da mesa e ver a árvore cintilante no canto da sala, decorada com grinaldas, bolas e guizos. Não conseguiu conter a felicidade que transbordava de dentro de si e riu-se como há muito já não ria.
— Não temas a noite, meu caro amigo. Também eu já experienciei muitas horas de desânimo e inquietação, de escuridão e incerteza. Basta que nunca te esqueças do mais importante, que a maior certeza que temos é a de que o sol tornará sempre a nascer.
E o mocho, com um ar concretizado e satisfeito, num bater de asas, abandonou o seu lugar na pedra e desapareceu. O menino não sabia para onde ele fora, mas deixou-o com o coração mais tranquilo.
— Uau! Aquele mocho era mesmo bem-parecido. E a cor das suas penas? Quem dera a muitas aves terem uma plumagem tão singular como aquela.
— É verdade. Ele também tinha penas castanhas e beges, pardal. É bastante parecido contigo, só que maior e mais sábio. Não concordas?
— Mais sábio?! Não entendo o que dizes. Eu cá tenho muitos factos fascinantes para partilhar. Por exemplo, sabias que uma formiga é capaz de carregar até cinquenta vezes o seu peso?
Enquanto o menino sorria e escutava o pardal, que tagarelava sobre os seus mais espantosos conhecimentos, os dois seguiram o novo caminho assinalado pelo guizo. O animal chilreou toda a jornada, não deixando espaço para silêncios ocos, mas para pausas reconfortantes, que davam ao rosto do menino uma nova cor, como só um amigo sabe fazer. Porém, quanto mais avançavam pela floresta, mais crescia a agitação dentro do menino. Tinha a sensação de que aquele vulto o guiava até algo importante e valioso, algo que ele tanto ansiava reencontrar. Quase como uma palavra que estivesse mesmo ali, debaixo da língua, mas que, por mais que se esforçasse, não conseguia reproduzir.
Os últimos resquícios de claridade foram-se desvanecendo e, no lugar do pano alaranjado do entardecer, estendia-se um imenso véu negro. A ausência da lua no céu fez acelerar a respiração do menino, assim como o seu coração, que tentava saltar-lhe do peito. A quietude da floresta foi interrompida por um restolhar das folhas secas dos arbustos mais adiante. O menino, sobressaltado, cambaleou para trás e tropeçou num largo tronco caído. Tal como o tronco, também ele estava agora no chão, receoso e cansado. O pardal pousou junto a ele e, perdendo a sua expressão leve e divertida, ofereceu-lhe um olhar que procurava transmitir-lhe segurança e alívio. O arbusto foi novamente sacudido, e dele surgiu uma figura altiva e ameaçadora. Um lobo, de olhos penetrantes e vigilantes, focinho afilado e corpo esguio e alto, aproximava-se deles.
O ar que respirava pareceu ficar preso na sua garganta e, apesar do pânico que o assolou, não foi capaz de mexer um único cabelo. Quanto mais nítida era a presença do animal, melhor o menino concluía que aquele não era o rosto de um ser ameaçador. O lobo carregava um olhar manso e cauteloso, mas não malicioso, e o menino sentiu os seus ombros relaxar e a sua respiração acalmar.
— Não temam, amigos. Não venho para vos fazer mal. Ouvi dizer que andam por esta floresta em busca de algo, ou de alguém.
— Estamos à procura de algo, sim. Creio que é um animal da floresta, tal como tu. É muito veloz e gracioso, é difícil acompanhá-lo.
Levando a mão ao bolso, o menino mostrou-lhe o guizo que fora deixado para trás. O lobo pareceu esboçar um meio sorriso, como que satisfeito com as palavras do menino.
— Vejo que sabes o que procuras e que estás bem acompanhado. – disse, olhando do menino para o pardal – Continua o teu caminho e, certamente, encontrarás aquilo por que tanto anseias.
O desânimo caiu sobre ele como uma manta húmida e pesada. Estava frio e era de noite. Há muito que haviam encontrado o guizo e seguiam por aquele caminho, sem encontrar qualquer outro vestígio do animal misterioso. Tornou a mirar o céu, continuava despido da lua e de estrelas, como uma sala vazia na noite de consoada. Mas, tão depressa como surgiram as questões e os medos na sua mente, o fundo escuro encheu-se, um por um, de pontos cintilantes. Os olhos do menino espelharam o bonito quadro que tinha à sua frente e iluminaram-se.
— É normal termos dúvidas. Nem sempre o caminho é tão evidente como gostaríamos que fosse. No entanto, não podemos contornar os obstáculos ou evitar tomar decisões. Continuarão a existir indecisões e desafios, por isso, é da maior importância que confies em ti próprio. Acredita que, independentemente da sinuosidade da estrada, fizeste esse caminho por um motivo e deves orgulhar-te de todos os passos que deste e que ainda hás-de dar. Deixa nesta floresta tudo o que te pesa e que sentes que te torna pequenino. E aquilo de que não te conseguires desfazer, entrega aos que te rodeiam para que te ajudem a carregá-lo.
O menino sorriu para o seu companheiro de viagem e encheu-se de alegria e certeza. Como uma enxurrada de purpurinas, o caminho à sua frente iluminou-se e estendeu-se para lá das árvores, terminando num grande e incandescente clarão.
Sem hesitar, o menino lançou-se numa frenética corrida em direção ao destino. Ofegante e de faces coradas, o menino manteve-se estanque a admirar a imagem que tinha diante de si. Estava novamente junto à árvore em que, há pouco tempo, se havia sentado, resignado ao pessimismo e à desmotivação. Mas a árvore estava diferente. Não era simplesmente uma velha árvore de raízes longas e cheias de histórias. Estava decorada com fitas douradas, como rios cintilantes por entre os seus galhos. Bolas de um intenso tom de vermelho pendiam dos ramos e balouçavam com a doce brisa. Sinos e guizos tiniam com o sopro do vento e refletiam os focos de luz que adornavam a árvore num harmonioso espetáculo de brilho. Era idêntica à árvore que montava todos os Natais com a família. Junto a ela, estava uma rena elegante e robusta, com um par de hastes ramificadas e grandiosas. Os seus olhos escuros, tal como os do menino, reproduziam a dança das luzes da grande árvore, e fitavam-no meigamente. Finalmente, encontrara aquilo por que tanto esperara.
O menino sorriu e voltou-se para trás. A imensidão de árvores havia desaparecido, e estava numa grande clareira húmida da neve que derreteu, cada vez mais verde. O sol estava prestes a rasgar a linha do horizonte, estava a chegar a aurora. O seu amigo pardal não estava ali, nem o mocho ou o lobo. No entanto, ele não se sentia sozinho. A noite estava a chegar ao fim e o sol não tardava a nascer.

Autoria: Catarina Paixão