Ode à mãe

Cuidado! Não vás, não olhes, não sejas!
Cuidado, atenção, olha lá!
Não caias, não toques, não cheires!
Não, não, não!

Tem precaução, cautela com isso, há coisas que deixam marcas.
Porta a abrir, porta a fechar,
Brinquedo cai, parte, estilhaça.
Vidro, sangue, pele retalhada.

Filho?! O que foste fazer, é disparate atrás de disparate!
Limpa o nariz, limpa a boca, limpa o cu!
Agasalha-te, olha o frio.
Tu cobre a cabeça que faz sol,
E não te esqueças da camisola, do casaco, do cachecol, do sobretudo e da manta.
E sobretudo, não te esqueças de ligar à tua mãe quando lá chegares,
Que se a tua mãe fica 5 minutos sem saber de ti, entra aqui num pânico que nem imaginas!
Chuva, granizo, roupa encharcada,
Calçada escorregadia, botas ensopadas.
Um deslize, um estalar e sangue no solo.

Cala-te, para de chorar, não te aguento mais,
Sempre a mesma birra, sempre a mesma coisa,
Já estou farta, isto não é vida para ninguém!
(Maldito o dia em que te tive)
Porque é que não és capaz de te calar por um minuto que seja,
CALA-TE!
Jarro de compota derrama, derruba o faqueiro,
Lâminas cortam e espetam-se em costas encurvadas, corcundas.
Sangue nos azulejos.


Achas justo isso?
Já viste o que fazes à tua mãe?
À tua pobre e cansada mãe
Que tantos sacrifícios faz por ti!
Quem mais te limpava o rabinho se não a tua mãe?
E quem te enxugava as lágrimas?
Eram os teus amigos com quem passas a vida?
Eram os colegas com quem fumas cigarros?
Ganha mas é juízo que tudo o que tens deves-me a mim.
Enquanto viveres debaixo do meu teto, quem manda sou eu!
E ai de ti que digas alguma coisa!
Quando saíres de casa, ganhas a tua liberdade,
Até lá, bico caladinho e respeitas a tua mãe!
Só me vais dar valor quando eu morrer,
Quando eu já não estiver cá!
Vais ver...

Cigarro acende, fumo é inalado e morre.


Autoria: Ricardo Silva