Conheceram-se em dezembro e foram o segredo um do outro. De nenhum se sabia algo. E jamais seriam mais do que clausura. Era estranho pertencerem-se, percorrerem-se confidencialmente. Ocultos da vida um do outro, quanto mais o sol se alongava, mais a distância os afastava. De vez em quando, sustinham um suspiro tempo suficiente para levar a crer que os seus corpos se tocavam no baldio enfurecido de uma terra sem dono. Aquilo que partilhavam na escuridão não lhes era possível desenhar livremente num hino apaixonado. Restavam-lhes apenas os momentos nos quais se vislumbravam, memórias de experiências aturdidas e passadas. Cada vez que viviam no outro, a sua própria vida trespassava-os inteiros, cruelmente. Entristecidos, choravam por outra oportunidade fugaz; ainda alentados com uma possível história iniciada por alguém diferente.
Ela via-o, entreaberta pelas cortinas remendadas da sua carne. Era uma rotina decrépita, mas única no seu fôlego. Vinha e ia, numa intempérie enovelada e revoltada. Podia-se estender durante mais uns momentos, despenhada do tempo, das roupas e do barulho… Mas trazia consigo a responsabilidade de outra. E, languidamente, despedia-se da mobília abandonada, passava os dedos pelo pó, soprando o que deles restava. Não fazia cerimónias, não se atirava à despedida e, cansada, dizia adeus em saudade. Por um lado, insistia em partir e, por outro, demovia ecos que os separassem. Chegava a ser um trabalho precário, de dezembro… Ainda se lembra desse frio que agredia, que violentava ações proferidas a medo. E, apesar de ser nova, ingénua nos seus passos, queria descrever o mundo com ele, o segredo.
Ele vinha sempre em segundo, encolhido pelo trauma embriagado que se distendia a seu grado. Insinuava-se por entre portas tocadas por ela e debatia-se embalado, selado, vendado a um espírito desenfreado que só consumia predadores. Contudo, sentia-se injustiçado com a quebra de poder, dissecada a dois amantes das horas errantes. Porquanto buscasse paz, nela e com ela viviam os seus demónios e a sua pobreza. As suas cores esbatiam-se no nevoeiro ofegante lançado às cortinas dos quartos que partiam com ela para longe. Apenas restava dor, uma que se contorcia num tremor insuflado, rodeando um corpo despejado. Seguia-se a angústia dele pautada pela crepitação áspera da solidão granjeada a duas almas constantemente em fuga. Portanto, ele acelerava desenfreadamente rua acima, perseguindo uma tarde demasiado gaiata, que terminava assim, ainda em suspense. E procurava nos outros uma razão, uma ínfima desculpa que o fizesse lembrar dela, reconstituindo-a aonde quer que estivesse. Nunca compreendera como é que se atava uma relação quebrada cuja humanidade estava entregue a um tempo sombrio parcelado. Ela facilmente se despedia, ele dificilmente aceitava.
Ambos se correlacionavam em desastre. Fugiam um do outro para vidas ensaiadas e, novamente, recompunham-se com uma fachada. Contudo, nenhum mudava.

