(sem) Título

O dia passa-se em espera. Eu, à espera de um final melhor. Os outros à espera de um tempo mais conveniente, em que possam desmanchar o dia pesado e delirante. Ofegantes das narrativas encurraladas de vidas comprometidas a contratos terrenos e rodopiantes. São golfadas de ar endurecido que viajam em ciclo, as mais quentes ascendem, seguindo as frias que descendem para voltar ao início que ininterruptamente se despede delas, aquecendo-as. O tempo passa assim, por entre instantes em movimento. Às vezes, quando se cresce, percebe-se que as tertúlias dos instantes são mais incandescentes do que vagarosas, especialmente nos momentos sós, decisivos. Com uma sociedade que cresce para os privilegiados que arremessam ilhas, e que mirra para aqueles que sonham em ter um nada de pouco, os excêntricos germinam em aldeias sofisticadas e os pobres em cabanas na cidade. É um incentivo grotesco à competição capitalista fundada por todos menos aqueles que os servem. E, de facto, segue-se a receita à risca – os pobres trabalham. Infelizmente, somos o produto de empreendedores que nutriram a criação, descartando as mãos da confeção. Tal e qual como a termodinâmica, que só valoriza o começo e o resultado final, ignorando o processo, já diziam os filósofos de part-time. Cada vez mais, apercebo-me do quão frágeis são as fundações do mortal comum cujas articulações sequestradas são marteladas pelo dia-a-dia pútrido de serviço ignóbil. Assim que as pessoas chegam a terra firme, perdem os seus direitos humanos de ser. E os seus sentidos também. Na terra que os acolhe, seja casa, prédio, comuna, cidade, país, jamais a sociedade é feita de pessoas sencientes, apenas acolchoados móveis que se desfazem pelo caminho. É desconcertante vê-los correr apavorados por entre horários, a saltitar de um sítio para o outro, completamente anestesiados da felicidade. Ser confortável para aqueles que se sentem incomodados por se sentarem em cima de nós é o propósito. Contudo, frequentemente, pouca disciplina leva a pouco respeito e conforto. Daí que as exigências precisem de ser cumpridas, pelo menos por dois em um. Cada um trabalha por dois (às vezes, até por sociedades inteiras). Lentamente, o lar construído acolhe mais violência e menos paciência. Enrijece, formando-se um bloco teso e compacto, desprovido de carinho e de riso. O tempo, a falta dele, também faz escassear o perdão. Consequentemente, a fábrica capitalista vai produzindo mão-de-obra cada vez mais qualificada para a auto-sabotagem e disciplina irascível. A depleção emocional, aliada ao ingurgitamento cognitivo competitivo, deixa uma sociedade magra de espírito crítico e robusta de massificação. Pelos vistos, ser pessoa carrega consigo o desequilíbrio da identidade. Quem somos dita parte da diferença entre nós, a vários níveis. E, independentemente da desigualdade, partimos sempre duma perspetiva humana para o mundo. Mesmo assim, teimamos em ser pequeninos com assuntos pequeninos que nos reduzem ainda mais ou ao fazermos escolhas ignorantes sobre a nossa pequenez. Descreve-se como natureza humana ser pouco conformista com a profundidade das decisões. Estas são, normalmente, precipitadas e impacientes. Não se aliam à racionalidade nem à ternura. Deste modo, temos salpicos coloridos efervescentes que insistem na criação rápida e descartam o amadurecimento lógico do produto. No meio disto tudo, a humanidade acontece aturdida por entre ritmos desencontrados coletivamente.

Autoria: Maria Vicente Teixeira