Espero pelo Inverno

O céu e a terra não comportam visões destas.
Terrores e fervores,
Motores pálidos face à inexorabilidade do destino.
Brotam faces, brotam esqueletos
Da bruma noturna brotam medos.

Ontem estava calor, sentia-o por toda a pele
E suava tal gladiador num embate ancestral.
Hoje é gélido o ar, tímido o andar
E a morte anda à coca.
O prazer carnal determina a sua rota.

Ainda estou à espera do Inverno
Já que o Outono não foi brando comigo
E na minha vida deixou pouco mais que o destino.
Sinto-o chegar, só quero que me congele.
Hei-de sobreviver séculos e milénios
Neste estado perene de inexistência fictícia.
Inconsistência sísmica do sentir
É a revolução do coração a bramir.

Tragam amarras, mordaças e restantes instrumentos de clausura
Que a minha pena será maior que a tonsura,
Será tortura aos olhos de todos, em público.
Púdico não serei, imóvel no meu cubo.

Só tentei sentir mais que a estação
E o que me disseram então
Foi que era proibido.
Por isso, pelo inverno espero
Já que o Outono não foi brando comigo.
Julgava-o meu amigo,
Julgava permitir os meus devaneios,
Ora, sobraram só anseios no lugar da faísca.

"Isso não é correto", enfrentei o demónio de fronte.
Bebi tudo, bebi da fonte da juventude
Em sonhos.
"Vai para lá do mundo", disse-me a ninfa.
Contrariei até minha linfa,
Vi-me traído pelo tempo.

Chove e troveja. No meu coração estaria sol,
Não fosse a imposição negra deste abismo.
Incrédulo aquele que me fita não vendo,
Que me olha não querendo
Alcançar mais que a carcaça.

E, hoje, dispo-me da carapaça.
Nu, com frio, agarrado às raízes da velha oliveira do meu jardim,.
Espero pelo Inverno que há em mim.



Autoria: Ricardo Silva