Viradas para poente, encontrámos, na luz dourada e fria do pôr do sol tardio, um recanto íntimo, só nosso. Assim o delineavas, encostando o teu dedo aos raios tímidos e cansados que dançavam por entre as nossas curvas e desapareciam nos buracos e esquinas irascivelmente inclinadas.
Olhavas, em silêncio, para a paisagem afastada, interrompida, aqui e ali, por cicatrizes bolbosas na terra corada. Os teus gestos improvisados, cruamente pousados pela natureza, permaneciam alheios ao langor ávido dos instantes pequeninos, derretidos. Havia liberdade lhana na tua carne aquecida – estendias-te, sem compromissos, ao longo da madeira arraçada, ao longo da minha pele arrepiada. Porquanto te tentasse acompanhar, respirar, eu detinha-me, pequenina, em cada exalação tua, incerta do teu ritmo, da tua matéria nua.
Sem pressas, percorreste-me mais perto, curiosa acerca do meu desjeito ingénuo, contido no meu coração galopante e pouco experimentado. E, então, repentinamente, olhaste-me em riste, escancarando as minhas estrelas num clarão… numa noite ainda gaiata, afoguei-me de olhos fechados na explosão síncrona de ondas quentes que me beijaram secretamente através do teu suor salgado. Não havia fuga possível nem condenação mais doce, leve, absorta da gravitação dos meus pensamentos. Contive em mim tamanho mundo, mudo por espanto, acrescido por susto. Sem saber, caía lentamente no céu pontilhado e crepitante que te cobria em ânimos soltos, livres. Nesta confusão ilhada, debati-me em ti – secretamente acolhi cada modéstia tua, que não se estendia para além da tua métrica nua, olhei para os teus recantos ousados, que discursavam tão alto em cada movimento precipitado. Hesitei ser algo junto à tua pertença. Contrariamente à certeza dos teus jeitos, a minha cadência era tremelicante, insegura. Então, estendi-me, derrotada, a olhar a noite vagada, encerrando-a em mim. Ali me despejei, extasiada, por entre o prazer e a carne bruta, no meio de nós. Escancarada por ti, a noite fria e suada entrou de rajada, acumulada e esfomeada, penetrou no meu corpo, calando-me o fôlego em uníssono. Foi assim.
Autoria: Maria Vicente Teixeira