A nossa violência

Os rios escoam nos teus silêncios e embocam nos teus segredos deixados à beira-mar. Acorda-me enquanto ainda tento respirar. Desmantelada em pedaços, feitos grãos, feitos mãos de vidro partidas – agarra o que resta. Recolhe o que puderes de um último suspiro não sustido. Ouve-me no que ainda atesto, resto dejeto. Talvez a finitude seja minha companheira em gesto. Protege-me de ti, encolhe-me e engole-me engolfada. Contém-me nas tuas entranhas salgadas. Sê os teus limites contidos – não existas para além deles. Estou em mim, transparente, para que te olhes ao espelho, finalmente. Quem é que tu vês na imensa solidão? Trazes-te contigo em passos pequeninos deixados para trás. E carregas tamanha racha, estrangeira ao toque, devorante. Esta fome vadia que trepa, fazendo morada nos relevos das tuas carnes idas. Abandonar-te é amenizado na impossibilidade de se concretizar. Não há concreto meu capaz de ser concretamente teu. Nos limites da nossa obsessão, juntos, somos duas peças desencaixadas e cosidas à força. Testemunhos da fraqueza da opção. Tínhamos duas. Uma obrigatória e outra obrigatoriamente aleatória. Porquanto resistimos, mais nos consumimos. Ridicularizados, em desrespeito deixados. A ruir. Em pó, sugados, o vento demorou-se nos nossos horizontes. De lés a lés, despidos num sopro deformado, colocados incapacitados na ausência de nós. Percebes? Afasta-te, simplesmente. Descompila-te de mim; por favor, desfaz a costura da minha pele. Arranca-me de ti, porque em mim vives só. Desfigurado – réstia de partes ignoradas e outras sobras aleijadas. Juntando-te, apenas és o que te cobre na magreza da incompletude. Se te alcançasse a tempo, nunca teríamos existido em paralelo, forçosamente vis. Agora, em colisão tardia, faço-te para te desfazer sobre quem és. Superior a mim, mas em mim contido. Carregas-te refletido em mim na incerteza de não saberes como te separares. Para ti, somos a sustentação de cada um. Sem o outro, nenhum se conhece, nada acontece.

Autoria: Maria Vicente Teixeira