De meu amor ledo já nada resta,
Para os campos baldios do mar
Se apartou. Sem despedida
Nem jeito de aviso me deixou.
Assim, desamparado, como soldado sem arma
Num grito que se cala só por se tentar.
Vasculhei a cidade negra,
Inundada pela dor vã
Em busca de qualquer sinal de ti.
Mas a cidade muralhou-se,
Despejou-me nos becos
E nunca mais aquele sorriso amargo eu vi.
Promessas de mundos
Declarações de rios
O nosso amor fluiu morrendo
Sem se dar por isso.
Nem ele próprio previra
O golpe breve que investiras.
Nem ele próprio sentira
O manto andrajoso que lhe ofertaras.
Foi de penas.
Foi de seda.
Foi de algum material mais leve que o ar
Que indelevelmente se apossara do coração.
Agora nem a fome basta.
A ruína inteira do mundo,
Metrópoles desabariam nesta afronta
De sonho que preparaste,
Mas nem elas serviriam para me encobrir os passos.
Foi nessa campina vasta de sal
Que minhas lágrimas se apartaram.
E foi nessa vistosa face de mal
Que meus olhos se petrificaram.
Para quem uma vida não chega,
Por quem se tornara cega,
Vítima de meu oficioso sentir me tornei.
Autoria: Ricardo Silva