Dizem que as primaveras passam apressadamente e que as flores brotam sem se ver, mas, a estes 51 anos, interessa apenas uma flor - que, quando brotou, trouxe a esperança com ela. Agora, os pequenos nascidos do dia-a-dia precisam de usufruir do dom de contar histórias das avós para ter um vislumbre de tempos longínquos, tempos em que as flores não brotavam como queriam, e as pessoas também não. Já no âmago da sua velhice, a memória voa com o vento e as histórias fragmentam-se. “Já lá vão muitos anos” dizem elas, balançando de trás para a frente nas suas cadeiras confortáveis, mas se há coisa que as avós de agora não olvidam por mais que a memória voe é de quando eram as jovens de ontem e, num dia (num único dia), a primavera finalmente chegou.
Mas todas as flores que brotam, ao fim de um tempo, murcham, e para a primavera se manter bela, é preciso brotarem flores novas. Quando se trata de liberdade, apenas despontam flores novas se nós as semearmos, mas estas só crescem se forem livres. Como é que, após 51 anos, as nossas flores parecem menos livres do que ontem e anteontem, e o dia antes desse? As mulheres que o digam.
Está para chegar ainda a madrugada que eu não esperava, que Sophia não esperava, que ninguém esperava. Uma desgraça nunca vem só, e agora estamos num mar delas, à deriva, à espera. O leme da caravela virou, e estamos a voltar para trás… mas sempre estivemos a seguir em frente? E, ainda assim, a primavera continua. E, ainda assim, estou aqui sentada, educada e livre, menina que fui e mulher que agora sou (e menina que continuo a ser) e não há mão na minha boca nem no meu pescoço, ninguém verte sangue para as minhas mãos e lágrimas não me saem dos olhos. Estou aqui, com a língua na boca e a fala nos dedos que escrevem este texto, ninguém me cala, ninguém me proíbe, ninguém me censura. Mas não estou feliz, nem triste; estou séria, desconfiada.
E, ainda assim, tive a sorte que tenho de ser de onde sou, de estar na terra onde estou, de viver no país onde vivo, e gostaria que isso não mudasse. Por mim, por elas, por eles, é importante que a liberdade não mude. “Não mudes a liberdade, leva-a contigo”, já diziam as avós no fim das suas histórias.
Não é por acaso que Abril está no coração da primavera. Não é por acaso que as flores escolhem brotar em Abril. Não é por acaso que no coração de Abril está o dia 25.
25 de Abril, sempre.
Autoria: Augusta Parsotam