Sobre teus silêncios voluntários

Nunca deixaste de saber o que dizer. As ausências nem sempre foram um problema entre nós, apenas reflexo daquilo que escolhemos omitir. Reciprocidade muda. Só que guardaste mais; tanto que nos privaste, tanto teu que pôde ser nosso e nunca foi.

A quietude imposta não te servia bem. Eu te olhava em meio ao silêncio desconcertante de quem já nada podia falar sem acertar no fim. Fingi amar os teus últimos silêncios como amei outrora, porque a mudez era só o que te impedia de proclamar que acabou.

Sempre um amor implícito; pensei poder viver com apenas metades de ti, mas eu não podia e tu sabias que não. Dê fim a minha miséria! Vá embora com todas as respostas que guardou para si e com as perguntas que sequer fizeste — meu coração gritava em fúria.

Tentei te amar sobre o teu abismo, você conhecia a profundidade do meu poço. Destrinchaste-me de dentro pra fora mesmo quando espelhei a tua moderação como forma de me proteger. Tola medida protetiva para alguém que se dispunha a pular do precipício, conhecer os teus confins.

Eu não sei o que fiz (que te fez ir embora). Como você pôde? O teu silêncio nunca havia me machucado tanto quanto ontem. Ontem, quando eu pensei que mais valia o nada em detrimento do fim. Ontem, quando, pela primeira vez, você não soube o que dizer e deixou o meu coração também mudo.

Às vezes, me pergunto se a humanidade, em não querer machucar ativamente alguém que já foi alvo dos nossos maiores afetos, é mais sensível, se vale mais do que a ida avisada, o beijo de despedida, a certeza do fim. Me ensinaste a amar as tuas ausências, os teus silêncios… E usaste o meu amor para facilitar a tua despedida.

E como se não bastasse ter me ensinado a amar o que algum dia poderia me despertar desafeto (e facilitar a tua ida), gravaste a tua risada junto das minhas memórias favoritas, impregnaste o teu cheiro nas minhas melhores roupas, eu conseguia sentir o teu toque quando passava por todos os lugares que costumávamos frequentar.

Condenaste-me. E a minha existência. É como se tudo depois de você se limitasse a ser isso: algo depois de você. Eu li que “o esquecimento é a sentença final da existência de qualquer coisa”, mas eu não sei como apagar você. Você existe em todo o silêncio.

Autoria: Natacha Abrantes