A inveja de quem não vive

Obscura razão de ser, esta de estar vivo;
de sair e espairecer sem nunca saber
das coisas mais que um signo, mais do que um motivo.
Mas essa obscura lanterna que irreverente
brilha em nós o sol celeste, que migra as terras
na embolia de se fazer ao mundo agreste
com coragem, dedicação; como aturdida
às margens desse instante rio e petulante,
subserviência vital de dois ou três segundos
dos nove meses aos oitenta anos, ela permanece
infame de si segura, e apaixonada até
ao fim.

É invejável.

Como pode o sol todo o dia erguer-se?
As estrelas, em seu inefável pejo,
almejando o aprisionar do horizonte?

É invejável.

E eu que todas as manhãs acordo,
busco nessa impertinência que é
o eterno fluxo, ou até nesse espasmo
dos pulmões que todo o dia cuspo,
uma razão que me engane, que me
convença, a permanecer um pouco
vivo...

Parece desgostoso como nesse cancro que nos é a alma
reencontramos a farsa comédia que nos significa
o mundo todo.
Que desespero!
Existir-se e
sem um motivo!
E ainda assim...

escavo no peito os vestígios de uma misteriosa força;
procuro nas sombras um só novo pedaço de luz;
caminho em frente ansiando as amarras de um amanhã.

Ainda que as coisas não tenham títulos,
que os versos não se iniciem na
sua rima regular, na sua métrica
de ordens e intelecto:

eu procuro.

E que mais
se pode pedir de um
ser humano?

Descortinadas
as falhas fantasias,
prosseguimos
resolutos,
pois que a centelha alegre
do Infinito
nos faz da Vida o mais
profundo sopro; e nos
becos áridos
da memória,
reencontramos a asa
que nos consiste — efémeros
anjos, Emissários da Eternidade.

Autoria: Tiago Figueiredo de Sousa