A mochila invisível

Aqui estou, sentada nesta sala de espera. Vim ver alguém que nunca vi antes. Bato com o pé no chão, uma tentativa silenciosa de lidar com o nervosismo. Dentro de instantes, serei chamada para conversar com uma pessoa desconhecida sobre mim, sobre os meus sentimentos, sobre as minhas angústias. Eu não quero falar sobre mim. Mas dizem que tem que ser. Uma mulher aproxima-se, será ela? Chamou pelo meu nome e sorriu. Sim, é ela. É esta a pessoa a quem tenho que revelar o que está guardado dentro de mim. Eu não gosto de falar sobre mim, mas dizem que tem que ser.
Ela pede-me para acompanhá-la até ao gabinete. É acolhedor, com sofás verde esmeralda que parecem muito confortáveis. Sento-me e confirmo que, de facto, são confortáveis. Ainda bem, porque vou passar aqui a próxima hora a falar sobre mim. Eu não quero, mas dizem que tem que ser.
Fico a observá-la durante alguns momentos, tentando encontrar as palavras. As minhas mãos mexem freneticamente num elástico de cabelo, uma tentativa inconsciente de acalmar a ansiedade. Ela faz-me uma pergunta. Quero responder? Acho que não. Mas dizem que tem que ser.
Começo a falar e, surpreendentemente, sinto-me compreendida. Não sou julgada. Quando dou por mim, estou a falar sobre mim, e, pela primeira vez, quero realmente falar sobre mim. Não é porque tem que ser. Não queria chorar, mas ela percebeu que carrego uma mochila muito pesada. Com meia hora de conversa, esta pessoa desconhecida conseguiu olhar para mim de uma forma que poucas pessoas conseguem. Ouviu-me, compreendeu-me e não me julgou. E eu chorei. Chorei porque estava a falar sobre mim, chorei porque encontrei alguém que não me julgava, chorei pela mochila pesada que carrego nas costas e que nunca ninguém viu.
Agora, ao sair, sinto-me mais leve. Quero voltar a ver esta pessoa, que já deixou de ser uma estranha, e quero continuar a falar sobre mim. Sinto que ela pode ajudar-me a esvaziar esta mochila, grande e pesada, que até hoje ninguém tinha percebido que eu carregava.

Autoria: Sara