Pertença

O ser humano é um ser social:
Precisa de pertencer a algo maior do que ele mesmo
Ou enlouquece, perde-se,
Atraiçoa-se antes de entender em pleno
Que a sua própria voz tanto pode ser cura
Como veneno.

Então porque não consigo pertencer plenamente
A ninguém nem a nada,
Qual espasmo involuntário da alma
Ao ser tocada?

Porque sinto que não sou suficiente nunca?
Porquê esta experiência quase extracorpórea de insignificância?
Porque caio na nostalgia do que poderia ser e do que seria
Se não duvidasse a toda a hora e circunstância?

Não bastam já as horas em claro, noite adentro,
Em que a escuridão me verga finalmente?
Porque hei de roubar-me também os momentos
Que desejo viver eternamente?

A verdade é que tenho medo.
Tenho medo de dar tudo e acharem que me excedo,
Que falo, que sinto, que sou demasiado,
Quando o “normal” é controlar, sentir pela metade.

Sinto muito por sentir muito,
Mas por outro lado não.
Tenho tanto para dar que não cabe cá dentro!
Mas e se eu for só um passatempo
Nas mãos de quem em nada acrescento?

O mais fácil é esconder, conter,
Empurrar lá para dentro e trancar por fora
Para que não ultrapasse as linhas do aceitável
E os assuste e os faça ir embora.

Também não seria suficiente, de qualquer forma,
Nem digna deste transbordar de emoção,
Que me torna mais leve quando eles me fazem acreditar
Que valho algo quando eu sinto que não.

Oh! Ser feliz sem pensar no que fiz para o merecer!
Sem racionalizar o que nada tem de racional!
Maldita esta conceção mórbida de valor pessoal
Que me impede de pertencer.

Autoria: Martina Castanheira